A notícia chega embrulhada com a solenidade de sempre. Os acionistas da South Plains Financial, holding do City Bank texano, se reuniram em assembleia anual e, com a previsibilidade de um relógio suíço, aprovaram a chapa de diretores indicada pela própria diretoria e ratificaram a contratação da firma de auditoria que já vinha auditando. Aplausos, ata assinada, comunicado ao mercado. O leitor desavisado pode até achar que assistiu a um exercício de governança. Assistiu, na verdade, a um cerimonial. A decisão estava tomada antes de qualquer crachá entrar no salão, e isso não é defeito da South Plains, é a regra do jogo nas corporações de capital pulverizado.
Olha, quando noventa e poucos por cento das ações votantes seguem a recomendação do conselho que se autoindicou, você não está diante de um mercado de ideias societárias. Está diante de um arranjo onde os pequenos acionistas, dispersos demais para se organizarem, terceirizam o voto para fundos passivos, que terceirizam para consultorias de proxy voting, que carimbam o que o conselho pediu. É a delegação em cascata até virar moto-perpétuo. O dono nominal da empresa não decide nada. Quem decide é uma teia de gestores profissionais que se elegem mutuamente em assembleias diferentes, num polvo de braços cruzados que ninguém eleitor original aprovou.
E aqui é onde se vê o que não se vê. A imprensa econômica trata esse tipo de assembleia como notícia de rotina, quase obrigação cartorária. O que ninguém pergunta é quanto custa esse cerimonial, quem se beneficia da estabilidade da diretoria, e o que aconteceria se um banco regional do Texas, com depósitos garantidos pelo contribuinte americano via FDIC, tivesse de prestar contas reais a quem real e finalmente paga a conta quando algo desanda. O cliente bancário não vota na assembleia. O contribuinte que sustenta o seguro de depósitos não vota na assembleia. Apenas os acionistas votam, e mesmo eles votam sem votar.
O auditor reconduzido merece um parágrafo à parte. A indústria de auditoria nas finanças americanas se concentrou em meia dúzia de firmas que auditam praticamente tudo o que se mexe, e o conflito é estrutural: a empresa auditada paga o auditor, escolhe o auditor, demite o auditor. Pedir parecer independente nesse arranjo é pedir que o cachorro vigie a linguiça. Funciona até o dia em que não funciona, e aí descobrimos pela enésima vez que ninguém viu nada, ninguém sabia de nada, e o relatório do ano anterior dizia que tudo estava em ordem. Lembre-se de 2008. Lembre-se de cada banco regional que quebrou em 2023 com auditoria limpa três meses antes.
Nada disso é exclusividade da South Plains, e justamente por isso o caso interessa. Cada assembleia anual americana repete o mesmo roteiro, e cada repetição reforça a ficção de que o capitalismo financeiro contemporâneo opera por escolha consciente de proprietários atentos. Não opera. Opera por inércia institucional, por captura de conselhos, por delegação cega e por uma camada regulatória que premia o tamanho e pune o desafiante. O pequeno banco comunitário do interior do Texas existe não porque venceu a concorrência no mérito, mas porque navegou décadas de regulação federal que tornou impossível abrir banco novo. Capitalismo de cartório com fachada de livre mercado.
Quer dizer, o noticiário registra que a democracia acionária funcionou mais um ano. O que registrou de verdade foi outro pregão silencioso do mesmo arranjo de sempre, onde quem manda continua mandando, quem audita continua auditando, e quem paga continua pagando sem ser consultado. Chamam isso de governança corporativa. O nome certo é outro, e quem tem ouvido para ouvir já sabe qual.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.