A notícia chega com aquela solenidade que o jornalismo financeiro adora reproduzir sem questionar: os acionistas da Starz Entertainment, em assembleia anual, aprovaram a recondução dos diretores e o voto consultivo sobre a remuneração dos executivos. Traduzindo do corporativês para o português honesto: o conselho indicou a si mesmo, os fundos que controlam o capital votante carimbaram o que já estava combinado, e os pequenos acionistas receberam o boletim eletrônico para registrar uma opinião que ninguém precisava ouvir. É democracia acionária da mesma forma que pleito em república bananeira é eleição: tem urna, tem ata, tem comunicado oficial, e tem um resultado que ninguém duvidava antes da abertura dos trabalhos.

Olha, o chamado "say on pay", essa joia regulatória vendida como conquista da boa governança, é o exemplo perfeito de intervenção que se apresenta como proteção e termina como cortina de fumaça. Criaram um voto não vinculante, ou seja, uma manifestação que o conselho pode ignorar com sorriso largo, e batizaram isso de avanço. O acionista vota contra o pacote bilionário do CEO, o conselho registra a divergência em uma nota de rodapé do relatório anual, e na assembleia seguinte tudo se repete com aumento. A regulação criou o ritual sem criar a consequência, que é exatamente o tipo de reforma cosmética que agrada burocrata, satisfaz ativista e não incomoda absolutamente ninguém no andar executivo.

Quer dizer, vale a pena seguir o dinheiro nesses casos, porque o dinheiro nunca mente. A Starz foi desmembrada da Lionsgate em meio à reorganização societária que prometia "destravar valor" para os acionistas, expressão mágica que nas últimas três décadas serviu para justificar fusão, cisão, recompra, alavancagem e o que mais o banco de investimento quisesse cobrar comissão para executar. O que se vê na manchete é a aprovação rotineira da chapa. O que não se vê é quanto cada diretor recebe em ações restritas, em opções precificadas em data conveniente, em bônus atrelado a métricas que o próprio executivo ajuda a calibrar, e em paraquedas dourados que disparam justamente quando a gestão fracassa.

Me diz uma coisa, em que outro setor da economia o sujeito que perde dinheiro do empregador sai com prêmio milionário? Nenhum. Mas no andar nobre da empresa de capital aberto isso virou liturgia. O conselho de administração, que deveria ser o cão de guarda do acionista, há muito virou clube social onde os mesmos nomes circulam de cadeira em cadeira, indicando uns aos outros, aprovando os pacotes uns dos outros, e cobrando jetons gordos para comparecer a quatro reuniões anuais onde se carimba o que a diretoria executiva entrega pronto. É o capitalismo de compadrio em sua versão mais polida, com terno italiano em vez de propina em maleta.

E aqui mora a ironia mais dolorida: quanto mais o regulador inventa exigência de "transparência", mais sofisticada fica a engenharia do disfarce. Relatórios de remuneração ocupam dezenas de páginas, comitês especializados produzem pareceres, consultorias internacionais validam os pacotes como "competitivos no mercado", e o resultado prático é que ninguém mais entende coisa nenhuma. Quem antes lia dez linhas e sabia quanto o presidente ganhava, hoje precisa de um analista para decifrar o que está enterrado entre notas explicativas, anexos e tabelas de sensibilidade. Aquela cerca que existia ali, simples e funcional, foi derrubada em nome do progresso, e o que sobrou foi um labirinto que protege exatamente quem deveria estar exposto.

O voto da Starz, portanto, não é notícia pelo que aprovou, é sintoma pelo que revela. Revela um mercado de capitais onde a propriedade foi dissociada do controle de tal maneira que o dono nominal não decide nada e o gestor contratado decide tudo, inclusive o próprio salário. Revela uma estrutura regulatória que se contenta com gestos simbólicos enquanto a substância escapa pela porta dos fundos. E revela, sobretudo, que a liberdade econômica de verdade só existe quando há consequência real para a má gestão, e não quando o fracasso é coroado com pacote de saída que daria para comprar uma frota de jatos. Enquanto o ritual continuar valendo mais que o resultado, a assembleia anual seguirá sendo o que é hoje: missa solene celebrada por padres que já sabem o final da homilia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.