A TriMas Corporation realizou sua assembleia anual e, com a pontualidade de um relógio suíço movido a procurações institucionais, elegeu os diretores que ela mesma havia indicado, aprovou a remuneração dos executivos que ela mesma havia desenhado e ratificou os auditores que ela mesma havia contratado. O comunicado vem embalado no jargão pomposo da governança corporativa, como se o acionista pulverizado tivesse alguma chance real de mudar uma vírgula naquele roteiro. Quer dizer, o teatro foi encenado, as cortinas subiram, os atores recitaram suas falas, e o público aplaudiu porque era isso que estava previsto no programa.
Há uma ilusão simpática que sobrevive em manuais de finanças e em discursos de presidente de bolsa, segundo a qual o acionista é dono da empresa e a assembleia é o parlamento dessa propriedade. Na prática, o que se vê é outra coisa. Os grandes blocos de votos pertencem a fundos passivos, gestoras institucionais e veículos de pensão que, salvo escândalo retumbante, votam mecanicamente conforme a recomendação do conselho ou de duas ou três casas de consultoria de voto que, sozinhas, decidem o destino de quase tudo que se chama capitalismo de capital aberto nos Estados Unidos. O pequeno acionista assina o cartão de procuração no automático, achando que está exercendo cidadania econômica.
Olha, a beleza do mercado livre não está em assembleia ritualística nenhuma, está no preço que se forma todo dia quando milhões de pessoas, cada uma com seu pedaço de informação, compram e vendem. É ali que a empresa é julgada de verdade, não numa sala onde o resultado já foi negociado em jantares e ligações que nenhum minoritário jamais saberá que aconteceram. Quando a cotação cai, o board acorda. Quando o conselho propõe bobagem, o capital foge. Esse é o tribunal real, o resto é cerimônia para constar na ata.
E me diz uma coisa, por que justamente os pacotes de remuneração de executivos passam quase sempre com folga em assembleias dessas? Porque quem desenha o pacote é quem indica os membros do comitê de compensação, que por sua vez indica os consultores que justificam o pacote, num circuito fechado em que o dinheiro entra pela porta da frente do bolso do acionista e sai pela porta dos fundos para o bolso do CEO. Siga o dinheiro até o fim e você descobrirá que governança corporativa, na maior parte das vezes, é o nome elegante de um arranjo entre quem manda e quem fiscaliza quem manda, ambos pagos pelos mesmos cofres.
Nada disso é peculiaridade da TriMas, e justamente esse é o problema. O modelo está calcificado, o ritual está institucionalizado, e o cidadão comum que comprou cem ações achando que ia opinar sobre o rumo do negócio descobre que sua opinião vale exatamente o peso percentual dela diante de gigantes que votam em bloco e em silêncio. A empresa pode ser sólida, o produto pode ser excelente, os números podem ser bonitos, e ainda assim o desenho de poder permanece o mesmo: um pequeno círculo decide, o resto homologa, e a imprensa especializada chama isso de democracia acionária.
A lição que esse tipo de assembleia oferece, ainda que sem querer, é a mesma de sempre. O verdadeiro controle sobre uma empresa não se exerce em sala de votação, exerce-se na liberdade de comprar, vender, sair, processar, competir e expor. Tudo o mais é folclore institucional. Acionista de capital aberto que acredita ter poder político dentro da companhia precisa, com urgência, reler o estatuto e contar quantos votos ele tem diante do BlackRock da vida.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.