Na terça-feira, as ações da Above Food serão formalmente removidas do pregão da NASDAQ. Fim de festa, fim de narrativa, fim de uma daquelas histórias bonitas que enchem apresentação de PowerPoint mas não pagam folha de pagamento. A empresa canadense, que se vendia como o futuro da alimentação sustentável, com proteínas vegetais, agricultura regenerativa e todo o vocabulário aprovado pelos comitês de boas intenções, descobriu da forma mais didática possível que o mercado de capitais, quando deixado em paz, tem uma característica inconveniente: ele exige resultado.
Olha, o roteiro é quase sempre o mesmo. Uma empresa surge prometendo salvar o planeta, ganha cobertura entusiasmada da imprensa especializada, recebe consultoria de bancos que cobram fortunas para vestir o cadáver com terno de noivo, abre capital via algum atalho regulatório, e nos primeiros trimestres a ação dança no gráfico enquanto os fundadores embolsam o que dá. Depois vem a parte chata: relatórios financeiros reais, receita que não aparece, prejuízo que não para, e o preço da ação que despenca abaixo do mínimo exigido pela bolsa para continuar listada. A NASDAQ tem regra clara, e quando a régua bate, não importa quão bonito é o pitch sobre futuro alimentar.
Quer dizer, isto aqui é precisamente o que os entusiastas do capitalismo de compadrio nunca entendem. Quando se obriga fundo de pensão a investir em empresa com selo verde, quando se subsidia setor inteiro porque está alinhado com a pauta do momento, quando se distorce o sinal de preço com incentivo fiscal e marketing ideológico, está se fabricando exatamente este tipo de cadáver financeiro. O dinheiro flui não para onde gera valor, mas para onde gera narrativa. E narrativa, por mais bem produzida que seja, não vira fluxo de caixa.
Me diz uma coisa, quem perdeu dinheiro aqui? Os fundadores provavelmente saíram bem, porque saíram cedo. Os bancos cobraram suas taxas independentemente do resultado. Os consultores de ESG receberam para colocar selo verde no que estava vermelho. Quem ficou com o mico foram os investidores de varejo que compraram a tese da revolução alimentar, os fundos que precisavam preencher cota de investimento sustentável, e os pequenos acionistas que acreditaram que desta vez seria diferente. A trilha do dinheiro nestes casos sempre termina no mesmo lugar: no bolso de quem vendeu a história, não de quem comprou.
A lição é antiga e os mercados a repetem com paciência didática. Empresa não existe para salvar o mundo, existe para gerar valor para quem nela trabalha, investe e consome. Quando se inverte a equação, quando o propósito vem antes do produto e o marketing antes da margem, o resultado é sempre o mesmo: uma carcaça com belíssimo relatório de sustentabilidade sendo retirada do pregão na terça-feira de manhã, enquanto os autores intelectuais do projeto já estão promovendo o próximo unicórnio verde em alguma conferência em Davos. A bolsa não tem comitê de diversidade. A bolsa tem caixa, lucro e fluxo, e quando estes três sumem, ela executa a sentença sem cerimônia.
Que sirva de aviso aos próximos. O mercado de capitais é o último tribunal onde a verdade ainda tem alguma chance de prevalecer sobre o discurso, porque no fim do trimestre não adianta apelar para a boa intenção quando o caixa está negativo. Above Food entrou na bolsa vendendo futuro e sai vendendo lição. Coisa rara, esta, num mundo onde quase tudo sai de graça às custas do contribuinte.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.