As ações da Alibaba dispararam após o último balanço trimestral, com a divisão de nuvem e inteligência artificial puxando os números para cima e fazendo Wall Street lembrar, por um instante, que a empresa existe e fatura. O mercado celebrou, os analistas correram para revisar seus alvos de preço, e os mesmos comentaristas que três anos atrás decretaram a morte da companhia agora descobrem virtudes que sempre estiveram lá. A diferença é que agora o tema da moda se chama IA, e tudo que toca essa sigla mágica vira ouro nas planilhas dos fundos.

Olha, é curioso como o entusiasmo do investidor consegue ser seletivamente amnésico. Foi ontem, em termos históricos, que o próprio partido comunista chinês resolveu disciplinar Jack Ma por ter aberto a boca em público sobre regulação financeira. Sumiram com o homem por meses, mataram a IPO da Ant Group no berço, abriram processo antitruste contra a Alibaba, multaram a empresa em bilhões e enviaram um recado claro a qualquer empresário que tivesse a ousadia de existir com brilho próprio. E agora, três anos depois, os mesmos gestores de fundos estrangeiros que viram tudo isso compram ações como se a tutela política não fosse parte estrutural do negócio. Quer dizer, alguém precisa lembrar que na China o acionista controlador real não usa terno, usa farda partidária.

O ponto que ninguém quer encarar é o seguinte: a Alibaba não cresce em IA por ser livre, cresce apesar de não ser livre. Cada chip avançado que ela consegue colocar em seus data centers passa por um labirinto de sanções americanas, contrabando técnico, alternativas domésticas inferiores e improviso de engenheiro que merece estátua. O que Wall Street está precificando não é capitalismo chinês florescendo, é a capacidade de uma empresa específica de driblar simultaneamente seu próprio governo e o governo americano. Isso não é virtude do modelo, é heroísmo individual sobrevivendo ao modelo. Confundir as duas coisas é o tipo de erro que custa caro quando o vento muda.

E o vento sempre muda em regimes onde a propriedade existe por concessão. Hoje o partido decidiu que campeões nacionais de tecnologia servem ao projeto geopolítico de competir com os Estados Unidos na corrida da IA, então a Alibaba volta a ser tratada como ativo estratégico e ganha trégua. Amanhã, se o vento mudar, se Jack Ma sorrir errado, se algum executivo der entrevista inconveniente, se a empresa crescer demais para o gosto da burocracia, a mesma mão que afaga será a que aperta. A volatilidade política está embutida no preço, e quem ignora isso está pagando ágio por uma ilusão de previsibilidade que não existe naquele país.

Vale prestar atenção também no que essa euforia revela sobre o estado da própria economia chinesa. Quando uma única narrativa setorial puxa o índice inteiro, quando os investidores se agarram à IA como o náufrago se agarra ao destroço, é porque o resto da história não está bonito. Setor imobiliário em coma induzido, consumo doméstico anêmico, deflação que assombra os dados oficiais, desemprego jovem maquiado por mudança de metodologia. Sobrou IA para vender esperança, e a Alibaba, por tabela, virou termômetro daquilo que Pequim precisa que o mundo continue acreditando. O resultado trimestral é real, os números são reais, mas o entusiasmo em torno deles diz mais sobre a carência de boas notícias do que sobre a saúde estrutural da economia chinesa.

No fim das contas, a lição é antiga e sempre a mesma. Inovação genuína só floresce onde o empreendedor pode acordar amanhã sabendo que continuará dono do que construiu. Onde isso não está garantido, o crescimento existe, sim, mas vive de joelhos, sempre olhando por cima do ombro, sempre dependendo da boa vontade de quem detém o monopólio da violência. Comprar Alibaba hoje pode dar lucro amanhã, e muito provavelmente vai dar. Mas que ninguém venha dizer que isso valida o modelo chinês. Valida apenas a competência de uns poucos engenheiros e executivos que conseguiram fazer milagre em terreno minado. E milagre, por definição, não é estratégia de investimento sustentável.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.