A notícia chega embrulhada no papel celofane de costume. Ampol, gigante australiana de combustíveis, recebe aval regulatório para engolir a EG Austrália, dona de centenas de postos espalhados pelo continente, e as ações sobem na bolsa como se houvesse algo de espontaneamente bom em ver dois peixes grandes virarem um peixe ainda maior. O analista de banco aplaude, o jornalista financeiro reproduz o release, e o consumidor médio, que paga combustível todo santo dia, é tratado como detalhe estatístico irrelevante na equação.

Olha, fusão e aquisição não é palavrão. O problema não está no ato em si, está no contexto. Toda vez que um regulador estatal carimba uma concentração desse tamanho, está dizendo, na prática, que aquele setor opera dentro de uma moldura que ele, regulador, considera aceitável. Quer dizer, o mesmo Estado que cria barreira de entrada via licença ambiental, exigência de capital, tributação labiríntica e regulamentação infinita, depois finge surpresa quando só sobram três ou quatro players capazes de comprar uns aos outros. A barreira que ele ergueu transformou o mercado em clube, e agora ele aprova a fusão dos sócios do clube com cara de quem está zelando pela concorrência.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um pequeno distribuidor independente conseguiu crescer a ponto de incomodar uma Ampol da vida? A resposta está na própria pergunta. O mercado de combustíveis no mundo inteiro virou um cartório de privilégios onde quem entra precisa carregar advogado, lobista e contador antes de carregar gasolina. E aí, quando o pequeno desiste ou é comprado, dizem que foi a mão invisível do mercado. Não foi. Foi a mão muito visível do Estado regulador que escolheu, parágrafo por parágrafo, quem sobrevive e quem morre.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais nítida. A Ampol paga bilhões pela EG Austrália, e esses bilhões precisam voltar para o balanço em algum momento. Voltam de onde? Da margem em cada litro vendido, da renegociação com fornecedores que ficaram com menos opções de cliente, do funcionário do posto que vai receber proposta de "sinergia operacional", eufemismo corporativo para demissão coletiva, e principalmente do motorista que, sem saber, financia a consolidação setorial enquanto reclama do preço na bomba achando que a culpa é do governo. A culpa é do governo, sim, mas não pelo motivo que ele imagina.

O que não se vê nessa história é o mais importante. Não se vê o empreendedor regional que jamais existirá porque o custo regulatório de abrir um posto novo virou proibitivo. Não se vê a inovação que não aconteceu porque o capital, em vez de financiar mil pequenas apostas, foi todo canalizado para uma única aposta grande de fusão. Não se vê o preço que poderia ser menor se houvesse vinte concorrentes brigando por cada cliente em vez de três gigantes cordialmente dividindo o território. O que se vê é a alta da ação, a manchete otimista, o ritual de celebração do mercado financeiro que confundiu há muito tempo concentração com eficiência.

E o melhor de tudo é o teatro regulatório. O órgão antitruste analisa a fusão durante meses, contrata pareceres, ouve as partes, e no fim aprova com algumas condições cosméticas que ninguém vai fiscalizar de verdade. É a liturgia perfeita do capitalismo de compadrio moderno, onde o governo finge que protege o consumidor, a empresa finge que cumpre as exigências, o jornalista finge que houve escrutínio, e o cidadão, esse, paga a conta de verdade enquanto assiste ao espetáculo achando que vive numa economia de mercado. Não vive. Vive num arranjo onde o mercado serve de fachada para um jogo cujas regras foram escritas pelos próprios jogadores graúdos, e cujo árbitro recebe salário público para apitar a favor do time que já está ganhando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.