A Arteris fechou o pregão com as ações em recorde histórico depois de divulgar o balanço do primeiro trimestre, e a manada do mercado fez o ritual de sempre, relatório bonito, múltiplos esticados, recomendação de compra, abraço entre analistas. Tudo muito civilizado, tudo muito técnico, tudo muito limpo. Só que basta puxar um fio dessa meada para perceber que não estamos diante de uma empresa que descobriu uma vacina, lançou um produto revolucionário ou abriu um mercado novo. Estamos diante de uma concessionária de pedágio, e concessionária de pedágio não gera riqueza, ela canaliza riqueza dos motoristas para o caixa do acionista através de um contrato assinado lá atrás com o governo.

Aqui mora a parte que o release não conta. O lucro recorde não veio porque a Arteris descobriu como asfaltar mais barato ou porque um engenheiro genial cortou custos pela metade. Veio, em larguíssima medida, do reajuste tarifário previsto em contrato, da inflação repassada com pontualidade suíça à tarifa, das obras atrasadas que continuam sem aparecer enquanto a cobrança aparece todo santo dia, e da matemática gentil da concessão, em que o risco é socializado e o lucro é privatizado. Quem pega a Régis Bittencourt num domingo à noite sabe do que estou falando. Você paga caro, anda devagar, encontra buraco, e ainda assiste o papel da empresa decolar na B3 como se fosse Vale do Silício.

Olha, o arranjo é antigo e a coreografia também. O governo concede o monopólio de um trecho, o concessionário se compromete com investimentos, os investimentos são empurrados para um futuro vago, a tarifa é reajustada por fórmula que ninguém da fila do pedágio assinou embaixo, e quando o lucro estoura o mercado aplaude a "eficiência operacional". Eficiência operacional uma ova. Eficiência operacional de verdade é a do dono da padaria que se a massa do pão pesa cinco gramas a menos perde o cliente para a esquina. O pedágio não tem esquina. O pedágio tem cancela. E cancela com escolta legal não é mercado, é tributação terceirizada com logomarca de empresa privada.

Me diz uma coisa, alguém viu o ágio da concessão sendo questionado quando o resultado decepciona? Não. Nessa hora pedem reequilíbrio econômico-financeiro, vão ao tribunal, batem na mesa, pedem socorro à agência reguladora que é gentilíssima com os regulados e implacável com o usuário. Mas quando o trimestre é histórico, ninguém propõe revisar a tarifa para baixo, ninguém devolve nada, ninguém abre mão do reajuste do ano que vem. Cara o concessionário ganha, coroa o motorista perde. É o velho capitalismo de compadrio fantasiado de livre iniciativa, e a bolsa premia exatamente o que deveria envergonhar quem ainda acredita em mercado de verdade.

O detalhe que o investidor mais experiente já sacou, e que ninguém vai escrever em letras garrafais, é que esse tipo de papel funciona como uma proxy oblíqua do imposto. Você está comprando uma fatia do direito de cobrar todo motorista que passa por ali pelos próximos tantos anos, com reajuste embutido, com penalidade contratual contra o governo se a regra mudar, e com endividamento subsidiado por bancos públicos quando precisa rolar a dívida. É um título quase soberano vestido de ação privada. Por isso dispara em ano de juros altos, por isso brilha quando a inflação sobe, por isso resiste a recessão. Ele não vende para o consumidor que pode dizer não. Ele cobra de quem precisa atravessar.

Então da próxima vez que o noticiário soltar manchete sobre o recorde histórico de uma concessionária de rodovia, faça o exercício mental honesto, pergunte de onde veio cada real desse lucro, quantos carros passaram, quanto cada um pagou, quanto da tarifa correspondia a obra prometida e nunca entregue, e quem assinou a fórmula de reajuste em nome de quem nunca foi consultado. A resposta é desconfortável e por isso ninguém faz a pergunta. O mercado celebra, o acionista comemora, e o sujeito que está indo trabalhar de madrugada paga a conta da festa sem nem saber que foi convidado. Lucro recorde de pedágio não é vitória do capitalismo. É a fatura do capitalismo de compadrio chegando bonita no extrato do fundo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.