A ação da AtriCure, fabricante americana de dispositivos para tratamento de fibrilação atrial, despencou ao patamar mais baixo dos últimos doze meses, fechando a vinte e sete dólares e quatro centavos. Quem acompanha o setor sabe que esse papel já flertou com valores muito superiores quando a impressora de Washington funcionava em ritmo industrial e qualquer empresa com a palavra "tecnologia" ou "saúde" no prospecto era recebida como se fosse a próxima Apple. Agora o feitiço acabou, e o que ficou foi a aritmética fria do balanço.
Olha, isso não é caso isolado nem azar. É o desenlace previsível de um ciclo inteiro construído sobre crédito artificialmente barato, juro real negativo e a ilusão coletiva de que dinheiro brota em árvore desde que o banco central regue todo trimestre. Quando o custo do capital era praticamente zero, qualquer projeto com fluxo de caixa lá na frente parecia razoável, porque o desconto que se aplicava ao futuro era ridículo. Empresa que queimava caixa virava promessa; promessa virava múltiplo; múltiplo virava preço de tela. E preço de tela, como todo investidor honesto sabe no íntimo, não é a mesma coisa que valor.
Quer dizer, o que se viu na AtriCure e em dezenas de pares do setor médico de pequena e média capitalização foi exatamente o filme que se repete há um século toda vez que a autoridade monetária resolve brincar de Papai Noel. Expansão de crédito gera euforia, euforia gera má alocação de recursos, má alocação gera correção, correção gera o coro lamurioso pedindo nova rodada de estímulo. É a mesma sinfonia, com instrumentos diferentes. Em 1929 era o rádio, nos anos 2000 foi a internet, em 2021 foi a tese genérica de que tudo que era digital ou biotecnológico valia o que o algoritmo pagasse. Hoje a fatura chega.
Me diz uma coisa, quem ganhou com a festa enquanto durou? Os fundos que entraram cedo e saíram antes, os bancos de investimento que cobraram comissão para abrir capital, os executivos que exerceram opção a preço de banana e venderam a preço de champanhe. Quem segura a vela agora? O investidor de varejo, o aposentado que confiou na carteira balanceada do gerente, o fundo de pensão que precisa entregar retorno e comprou na máxima porque o consultor disse que era safe haven do setor de saúde. Siga o dinheiro e você vai descobrir que ele já mudou de bolso faz tempo.
O detalhe que ninguém quer admitir é que a queda da AtriCure não é problema de gestão, de produto ou de mercado endereçável. O dispositivo que ela vende continua funcionando, os médicos continuam usando, os pacientes continuam sendo tratados. O que mudou foi o preço do dinheiro, e quando o preço do dinheiro muda, todo ativo financeiro precisa ser reprecificado. Isso não é falha do capitalismo; é o capitalismo finalmente operando depois de uma década sequestrado por planejadores centrais que acharam que podiam revogar a lei da gravidade econômica com canetada de comitê.
A lição, para quem quiser aprender, é simples e brutal. Não existe almoço grátis, não existe juro zero perpétuo, não existe valuation que sobreviva à normalização do custo de capital. O que existe é gente competente alocando capital próprio com pele em jogo, e gente inflando bolha com pele dos outros. A bolsa, no fim, é só o termômetro que separa as duas categorias. E o termômetro, neste momento, está marcando febre baixa em alguém que passou anos achando que era atleta olímpico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.