O índice CSI 300 fechou no topo de três meses e a imprensa financeira saiu correndo para vender a narrativa de que o cessar-fogo no Irã trouxe "otimismo cauteloso" aos mercados chineses. Olha, é preciso uma dose generosa de ingenuidade, ou de cinismo profissional, para acreditar que o humor da bolsa de Xangai depende de um acordo frágil negociado por aiatolás e generais israelenses. O que move o preço dos ativos chineses não é paz no Oriente Médio, é a torneira aberta em Pequim, e quem não enxerga isso está olhando para o dedo enquanto o dedo aponta para a lua.

Quer dizer, a lógica funciona assim, o cessar-fogo alivia o preço do barril, o barril mais barato alivia a pressão sobre a balança de pagamentos chinesa, que por sua vez dá margem para o Banco Popular da China continuar fazendo o que faz de melhor, que é imprimir yuan para sustentar uma economia onde o setor imobiliário já quebrou, a demografia já virou, e o crescimento oficial é aquela piada que só os funcionários do FMI fingem levar a sério. O rali não é otimismo, é oxigênio artificial bombeado num paciente que está na UTI há dois anos.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que a bolsa chinesa subiu porque o consumidor chinês ficou mais rico, a produtividade aumentou, ou alguma empresa privada floresceu sem a mão do Partido no pescoço? A resposta honesta é que o mercado acionário da China virou um termômetro da disposição do governo em socorrer o próprio sistema. Cada alta é uma promessa implícita de que o Politburo vai intervir de novo, comprar ações via fundos estatais, afrouxar compulsório, baixar juros, salvar incorporadora. O investidor não está apostando em empresas, está apostando no resgate.

E aqui mora o truque que ninguém na CNBC vai contar na sua cara. O dinheiro que infla essas bolsas não vem de poupança genuína, vem de crédito criado do nada, expansão monetária que precisa encontrar algum lugar para pousar. Quando a bolha imobiliária estoura, a liquidez migra para as ações. Quando as ações decepcionam, migra para commodities. É o velho ciclo do boom artificial seguido do estouro inevitável, só que o governo chinês, como todo governo que se preza, aprendeu a adiar o estouro empurrando a conta para o próximo trimestre, o próximo ano, o próximo plano quinquenal.

Siga o dinheiro e você vai entender. Quem ganha com esse rali são os fundos estatais que compraram na baixa, os executivos ligados ao Partido que receberam informação privilegiada, os bancos que precisavam marcar carteira no positivo antes do fechamento do trimestre. Quem perde é o pequeno investidor chinês, que vai comprar no topo da onda como sempre, e o mundo inteiro, que continua financiando um regime que exporta deflação, distorce cadeias produtivas globais, e usa superávit comercial para comprar tecnologia, porto e influência em todo canto onde há um ditador disposto a aceitar o yuan.

O cessar-fogo no Irã vai durar o que durar, provavelmente pouco, e a bolsa chinesa vai continuar subindo e caindo ao sabor da próxima injeção de liquidez. O fato concreto é que nenhuma economia sustentável foi construída sobre intervenção monetária permanente, controle estatal de capital, e estatística fabricada. O que se vê hoje é a festa, o que não se vê é a conta que está sendo empurrada para debaixo do tapete. E quando o tapete não aguentar mais, vai ser tarde demais para quem acreditou no "otimismo cauteloso" da manchete de hoje.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.