A Clear Secure atingiu a máxima de 52 semanas a US$ 56,54 e os analistas de Wall Street tratam o evento como triunfo empresarial puro, case de inovação, genialidade do livre mercado aplicada à biometria. Olha, a coisa é bem mais interessante do que isso. A Clear não vende segurança, não vende eficiência, não vende tecnologia. A Clear vende o direito de furar a fila que o governo americano obrigou todo mundo a enfrentar depois de 2001. É um negócio brilhante, admito, mas é brilhante do mesmo jeito que era brilhante vender indulgências em Mainz no século XVI. Você cria o inferno burocrático, cobra caro para tirar o sujeito de lá, e ainda abre capital na bolsa com múltiplos generosos.

Me diz uma coisa, que tipo de mercado é esse em que o produto vendido é a ausência do produto que o Estado impôs? A TSA existe, as filas existem, os scanners existem, os protocolos humilhantes de tirar sapato, cinto, laptop e dignidade existem, tudo isso porque uma agência federal decidiu que seria assim. A Clear chega e diz: pague US$ 199 por ano e você não precisa passar por esse inferno que nós, enquanto sociedade, decidimos ser inevitável. Quer dizer, inevitável para o pobre. Para quem paga, desaparece. E o mercado aplaude de pé, como se isso fosse capitalismo funcionando.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais saborosa ainda. A Clear opera em mais de cinquenta aeroportos americanos mediante acordos com a TSA, que é a mesma agência cujas filas a Clear promete eliminar. Quer dizer, o regulador público licencia a empresa privada que vende o escape da regulação que o próprio regulador impõe. Se isso não é capitalismo de compadrio em estado puro, então a palavra perdeu sentido. É o arranjo perfeito: o cidadão médio paga imposto para sustentar a TSA, paga o preço da passagem inflado pelas taxas de segurança, e ainda tem a opção de pagar uma terceira vez para não ser tratado como suspeito no aeroporto que ele já financiou três vezes.

O que se vê é a ação subindo, o investidor feliz, o CEO no CNBC falando em disrupção. O que não se vê é o passageiro na fila de duas horas em Newark enquanto o assinante Clear passa ao lado sorrindo. O que não se vê é a mensagem implícita do sistema: seus direitos como cidadão foram transformados em assinatura premium. O que não se vê é a normalização da ideia de que conveniência, privacidade biométrica e tempo de vida são mercadorias tarifadas em dois níveis, um para quem pode e outro para quem aguenta. E a bolsa precifica isso como crescimento, porque na lógica financeira o sofrimento alheio convertido em assinatura recorrente é o melhor dos negócios, margem alta e churn baixo.

Existe uma ironia cruel nisso tudo que o investidor distraído não percebe. A tese de investimento da Clear depende, literalmente, da permanência do estado de coisas que ela promete resolver. Se a TSA amanhã decidisse simplificar procedimentos, acabar com o teatro de segurança e tratar cidadão como cidadão, a Clear viraria pó em uma semana. Portanto, o acionista da Clear está, objetivamente, torcendo para que a burocracia federal continue sufocante, invasiva e humilhante. O lucro dele depende da sua miséria no saguão. Isso não é um bug do modelo, é o modelo inteiro.

Máxima histórica a US$ 56,54 não é vitória do livre mercado, é fatura do Estado inchado sendo paga em dividendos para quem teve estômago de montar a pedágio na saída do labirinto. A verdadeira disrupção não seria uma empresa vendendo atalhos na fila, seria o fim da fila. Mas essa ninguém abre capital na NYSE, porque essa destrói o negócio inteiro, inclusive o negócio do governo que inventou a fila.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.