Uma fabricante de equipamentos para teste de semicondutores bate máxima de 52 semanas e o repórter financeiro escreve como se fosse milagre da meritocracia. Olha, a Cohu fabrica máquinas que testam chips, e ninguém duvida que o setor de semicondutores é estratégico, lucrativo, decisivo para a próxima década. O problema não está na empresa. O problema está em fingir que o preço de uma ação, no atual ambiente monetário, ainda mede a saúde real de um negócio. Mede, sim, mas mede também a quantidade de liquidez represada que precisa de um lugar para morar antes que a inflação a coma viva.
Quer dizer, há quase duas décadas o sistema financeiro global vive sob o regime do crédito barato, da expansão de balanço dos bancos centrais, dos juros artificialmente comprimidos sempre que algum setor politicamente conveniente começa a sangrar. Cada dólar que o Federal Reserve criou do nada nos últimos quinze anos precisou ir para algum lugar, e esse lugar foi o mercado de ações, o mercado imobiliário, as criptomoedas e, sim, os fabricantes de equipamentos de chips. O boom não desce até a padaria do bairro. Fica circulando entre tickers, fundos de hedge e algoritmos de alta frequência, num circuito fechado que se autocelebra enquanto o salário real do trabalhador despenca.
Me diz uma coisa: por que justamente agora o setor de semicondutores explode em valuation? Não é coincidência. É política industrial disfarçada de mercado. O CHIPS Act americano injetou 52 bilhões de dólares em subsídios para fabricantes domésticas de chips, e cada centavo desse dinheiro confiscado do contribuinte vira contrato, encomenda, pedido de equipamento, ordem de compra para empresas como a Cohu, que vendem as máquinas que testam os chips que serão produzidos com dinheiro público. Siga a trilha. O contribuinte paga o imposto, o governo redistribui o imposto para o lobby do silício, o lobby do silício compra equipamentos da Cohu, e o acionista da Cohu comemora a máxima de 52 semanas. O que se vê é o gráfico verde. O que não se vê são os pequenos negócios que fecharam porque o capital migrou para onde o Estado prometeu retorno garantido.
Há uma palavra antiga para esse arranjo, e ela não é capitalismo. Capitalismo é o padeiro acordando às quatro da manhã para servir o cliente que escolheu livremente entrar na padaria dele. O que está acontecendo no setor tecnológico americano é mercantilismo de luxo, capitalismo de compadrio com verniz de inovação, onde o sucesso da empresa depende menos da qualidade do produto e mais da proximidade com o burocrata que decide quem recebe o cheque federal. Os romanos chamavam isso de patronato. Os medievais chamavam de privilégio real. O leitor moderno, treinado pelo jornalismo financeiro, chama de boa governança e visão estratégica.
E ninguém pergunta o óbvio, que é o seguinte: o que acontece quando a torneira fechar? Porque vai fechar, em algum momento. Toda expansão monetária artificial termina em ajuste, e o ajuste é sempre mais doloroso do que teria sido se o mercado tivesse corrigido sozinho lá atrás. As ações que sobem com dinheiro impresso descem com a mesma velocidade quando o ciclo vira, e o investidor de varejo que comprou no topo vai descobrir que a máxima de 52 semanas era também o limite da festa. Os grandes fundos já estão se posicionando para a saída. O cidadão comum, como sempre, vai ser o último a saber e o primeiro a pagar a conta.
Celebrar máxima de ação no atual ambiente é como elogiar a temperatura do paciente que está com febre alta. O termômetro está funcionando perfeitamente. Quem está doente é o sistema monetário inteiro, e a Cohu, coitada, é só mais um sintoma bonito de uma doença feia que ninguém quer diagnosticar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.