A cotação fechou em US$ 1.672,11, recorde absoluto, e a Comfort Systems USA, uma companhia que instala duto, caldeira, chiller e sistema de climatização industrial, passou a valer mais do que muita fintech badalada que promete revolucionar o mundo em PowerPoint. Quer dizer, enquanto o noticiário econômico gasta tinta debatendo se a inteligência artificial vai substituir advogado, médico e jornalista, o mercado, silenciosamente, apostou pesado em quem vende cobre, chapa galvanizada e mão de obra especializada para resfriar os galpões onde esses modelos rodam. O capital enxergou o que o comentarista não viu: sem refrigeração industrial, o sonho digital derrete literalmente.

Olha, aí está um exemplo didático daquilo que nenhum ministério de planejamento do mundo jamais conseguiria fazer. Em 1995, se você dissesse a um comitê de sábios que a empresa mais bem posicionada para surfar a revolução da inteligência artificial seria uma empreiteira de tubulação do Texas, seria tratado como maluco. Mas o preço, essa coisinha que os intervencionistas odeiam porque não conseguem controlar, agregou em tempo real o conhecimento disperso de milhões de engenheiros, investidores, operadores de fundo, clientes corporativos e fornecedores, e chegou à conclusão antes de qualquer ministro da Economia. Nenhum burocrata, por mais diploma que tenha na parede, é capaz de replicar esse milagre silencioso.

Me diz uma coisa: quantos planos plurianuais de desenvolvimento industrial, quantos BNDES da vida, quantos programas de campeões nacionais seriam necessários para uma mente central apostar em HVAC como vetor estratégico da próxima década? A resposta é zero, porque o Estado não aposta, o Estado distribui. O capital privado assume risco, perde quando erra, ganha quando acerta, e por isso presta atenção. O burocrata assume risco com o dinheiro alheio, não perde nada quando erra, e por isso se dá ao luxo de ignorar a realidade. A Comfort Systems a US$ 1.672 é a cara de um sistema que funciona apesar dos pesares, não por causa deles.

Siga o dinheiro e você verá algo interessante. A gigantesca demanda por data centers vem, em grande parte, de empresas privadas financiando com capital próprio ou captação de mercado aquilo que governos do Ocidente inteiro prometeram fazer via "políticas industriais de semicondutores" e entregaram em apresentações institucionais. Enquanto Bruxelas e Brasília rabiscam decretos sobre soberania digital, uma empresa listada na bolsa já está instalando o chiller de 4 mil toneladas em Ohio. A diferença entre quem fala e quem entrega se mede em dólar por ação, e o mercado tem memória curta para promessa e longa para execução.

Vale lembrar, para quem se anima demais com alta histórica, que toda euforia contém dentro de si o embrião da próxima ressaca. Quando o dinheiro é expandido artificialmente pela autoridade monetária, setores inteiros se iluminam de forma desproporcional, e a correção, quando chega, costuma ser impiedosa. Não estou dizendo que a Comfort Systems esteja em bolha, estou dizendo que ninguém sabe, e quem disser que sabe está mentindo ou se enganando. O que se sabe é que o juro artificialmente empurrado para baixo durante anos criou condições para capex gigantesco, e nem todo capex sobrevive ao inverno que inevitavelmente virá.

Fica, no entanto, a lição central, a que importa mais do que qualquer tese de investimento: um sistema de preços livre, operando sem a mão pesada do planejador, identificou a pá, a picareta e o duto de ventilação como os ativos estratégicos da era da inteligência artificial. Nenhum comitê chegaria a essa conclusão. Nenhum ministro teria a coragem de autorizar essa aposta. E é precisamente por isso que a civilização que deixa o capital correr continua inventando o futuro, enquanto a que tenta dirigi-lo de cima fica eternamente escrevendo relatórios sobre como chegar lá.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.