Pois bem, a Dole entregou números aquém do consenso no primeiro trimestre e o mercado respondeu como sempre responde quando descobre que a fantasia não bate com o balanço, cortando 4% do valor de uma tacada. O detalhe que a manchete não conta é que a empresa não está vendendo menos banana, abacaxi ou alface, está vendendo a preços que não cobrem a velocidade com que os custos sobem na cadeia. Frete, fertilizante, embalagem, energia, mão de obra, tudo isso encarece num ritmo que nenhum departamento de marketing consegue disfarçar com vídeo institucional sobre sustentabilidade.

Olha, é curioso como o público se assusta com a queda de 4% e ignora a engrenagem que produziu a queda. Quando o banco central de qualquer canto do mundo decide que pode imprimir dinheiro sem produzir nada, alguém paga essa conta lá na ponta, e a ponta neste caso é o produtor que planta, colhe, transporta e refrigera uma fruta perecível atravessando três continentes. Inflação não é fenômeno meteorológico que cai do céu por azar, é resultado direto de decisão política, e quem trabalha com margem apertada sente primeiro, sangra primeiro e aparece primeiro no relatório trimestral.

Me diz uma coisa, quem ganha com tarifa de importação sobre fruta tropical em país do hemisfério norte? Não é o consumidor que paga mais caro pela banana do café da manhã, não é o trabalhador rural na Costa Rica que continua recebendo o mesmo, não é o produtor que vê sua fatia espremida entre custo crescente e preço travado. Ganha quem fez lobby para erguer a barreira, ganha quem captura subsídio agrícola interno, ganha o burocrata que regula o setor e depois vai trabalhar de consultor para o setor. Siga o dinheiro e você encontra sempre os mesmos nomes nos mesmos jantares.

O sintoma mais honesto desse balanço é o que o relatório chama elegantemente de pressão de custos, expressão asséptica para descrever o resultado de décadas de gastança pública financiada por dívida e impressora. Cada dólar que o governo emite sem lastro é um pedaço de poder de compra que sai do bolso de quem produz e vai para o bolso de quem está mais perto do balcão da emissão, num esquema que já foi denunciado em todo século desde que existe moeda, e que continua funcionando porque a maioria das pessoas acha que economia é assunto chato demais para prestar atenção.

Há ainda o capítulo regulatório, esse personagem que ninguém aplaude mas que está em toda cena. Normas sanitárias multiplicadas, exigências ambientais que mudam a cada eleição, certificações que custam mais que o frete, tudo isso compõe um custo invisível que não aparece como linha no balanço mas comprime cada centavo de margem. O resultado é que multinacional de fruta vira refém de planilha de compliance enquanto o pequeno produtor simplesmente desiste, deixando o mercado mais concentrado, menos competitivo e, ao final, mais caro para o consumidor que a regulação dizia proteger.

Quatro por cento de queda numa ação de fruta não é notícia, é parábola. Quem souber ler a parábola entende que o problema não está na Dole, está no sistema monetário que corrói, no sistema regulatório que sufoca e no sistema político que finge não ver. A banana caiu na bolsa hoje, mas há muito tempo está caindo no carrinho de compras de todo mundo, e o investidor que se assusta com 4% deveria estar furioso com os 40% que perdeu sem perceber nos últimos anos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.