O enredo é velho como o capitalismo financeiro contemporâneo, e ainda assim continua dando matéria para a imprensa de negócios fingir surpresa. Um fundo ativista, daqueles que se especializaram em comprar fatia barata de empresa de tecnologia para depois bater na mesa pedindo recompra de ações, corte de pessoal, venda de divisões e troca de conselho, aparece no registro acionário da Dynatrace. O papel sobe na hora. Ninguém perguntou ao engenheiro que escreve o código, ninguém consultou o cliente que paga a assinatura, ninguém avisou o funcionário que talvez esteja com os dias contados. O preço subiu porque o cheiro do bisturi excita o investidor de curto prazo, e ponto.
Olha, é importante separar duas coisas que costumam ser embaralhadas de propósito. Existe o capitalismo do dono que constrói, do empreendedor que arrisca patrimônio próprio, que dorme mal pensando em folha de pagamento e que entrega ao cliente algo que o cliente realmente quer. E existe o capitalismo do administrador de capital alheio que entra, gira, esmaga e sai, deixando para trás uma empresa endividada para pagar dividendo extraordinário e um quadro de funcionários reduzido pela metade. Os dois usam a mesma palavra, mercado, e operam em mundos morais distintos. Confundir os dois é o truque retórico predileto de quem quer atacar o primeiro usando os pecados do segundo.
Me diz uma coisa, por que justamente o setor de tecnologia virou alvo preferido desses fundos? Porque é onde a montanha de caixa parado fica visível no balanço, porque margens de software são gordas, porque o investidor passivo dos grandes índices vota no que o ativista mandar, e porque a régua de governança corporativa atual premia quem entrega retorno trimestral, não quem constrói produto para a próxima década. O incentivo está distorcido na raiz, e a raiz não é o mercado livre, é a arquitetura regulatória que transformou capital em commodity desancorada de propósito, com fundos de pensão obrigados por lei a perseguir benchmark e bancos centrais inundando o sistema de liquidez por mais de quinze anos.
Siga o dinheiro, sempre. O ativista compra barato porque a tese dele é que existe valor preso dentro da empresa que a gestão atual não está extraindo. Em tese, ótimo, ineficiência corrigida é riqueza criada. Na prática, valor extraído nem sempre é valor criado, é frequentemente valor transferido. Recompra de ação financiada com dívida não inventa um centavo de produtividade, apenas concentra propriedade e infla métrica por ação. Demissão em massa para bater meta de margem do trimestre não constrói nada, apenas joga o custo do ajuste no colo do trabalhador e da comunidade que o cercava. O ganho aparece bonito na planilha do gestor, o prejuízo aparece distribuído, fragmentado, invisível.
E aqui chega a parte que o noticiário econômico jamais vai contar, porque exigiria desconfiar do próprio ofício. Boa parte dessa engenharia só é lucrativa porque o dinheiro está artificialmente barato há tempo demais, porque o sistema tributário trata dívida melhor que capital próprio, e porque a regulação do mercado de capitais foi capturada justamente por quem se beneficia dessa dinâmica. Tira a impressora monetária da equação, devolve juros reais positivos de verdade por uma década, e metade desses fundos abutres descobre que sem dinheiro de graça eles não passam de gestores medianos de portfólio. O ativismo financeiro é, em larga medida, filho legítimo do dinheiro fácil. O abutre só prospera onde o ar está rarefeito por intervenção monetária crônica.
Resta o consolo modesto de que, vez ou outra, o ativista realmente acerta o diagnóstico e empurra uma gestão acomodada para fazer o que devia ter feito sozinha. Acontece, não nego. Mas confundir esse caso pontual com elogio geral à indústria do desmonte é o tipo de ingenuidade que a imprensa de negócios cultiva profissionalmente. A Dynatrace não subiu hoje porque ficou melhor de manhã para a noite. Subiu porque o mercado calcula que alguém vai cortar carne. E aplaudir corte de carne sem perguntar de quem é a carne é a definição mais econômica possível de cumplicidade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.