A notícia é simples e por isso incômoda. A Edenred reportou receita do primeiro trimestre acima do esperado, as ações dispararam, e o coro dos analistas oficiais teve que engolir a manchete. O detalhe que ninguém quer sublinhar é o adjetivo escondido no meio da frase: ventos contrários regulatórios. Traduzindo do corporativês para o português, significa que governos de vários continentes passaram os últimos trimestres tentando enfiar o dedo na engrenagem, e mesmo assim a engrenagem girou. Quando uma empresa cresce apesar do regulador, o mercado não está celebrando a empresa. Está celebrando a derrota momentânea de quem tentou sufocá-la.
Vale lembrar o roteiro. No Brasil, o setor de benefícios ao trabalhador virou alvo favorito de legisladores que descobriram, com atraso de décadas, que existia dinheiro circulando ali e que esse dinheiro não passava pelo cofre central. Vieram então os tetos de taxa, as tentativas de interoperabilidade forçada, o discurso de que a margem era abusiva, a retórica pronta sobre proteger o trabalhador. Curioso como o trabalhador é sempre o pretexto e nunca o destinatário final da economia prometida. O que se viu, na prática, foi o preço do serviço subindo para o empregador, a rede de estabelecimentos afinando, e os tais ganhos prometidos evaporando na conta do contribuinte, que paga duas vezes: na carga tributária e na ineficiência que o controle produz.
Olha, é preciso dizer com todas as letras. O burocrata que decide que uma margem é alta demais nunca administrou uma folha de pagamento, nunca precisou fechar um contrato com dez mil pontos de venda, nunca lidou com fraude, nunca operou tecnologia de pagamento sob regulação cambial. Ele decide por decreto aquilo que o mercado decide por cálculo, e depois se surpreende quando o resultado é diferente do planilhado. O conhecimento relevante para precificar um vale-refeição está distribuído entre milhões de transações diárias, e nenhum comitê em Brasília ou em Bruxelas consegue replicar isso numa reunião de quarta-feira às quinze horas. Quem tenta, produz escassez onde havia abundância.
Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais claro. Quem ganha com o aperto regulatório no setor de benefícios não é o trabalhador que almoça no balcão da esquina. São os concorrentes politicamente bem posicionados que conseguem se encaixar no novo desenho das regras, são as fintechs com lobby afiado que usam o argumento da inovação para capturar fatia de mercado via canetada, e são os próprios burocratas, que transformam o setor em fonte inesgotável de consulta pública, relatório de impacto e cadeira de conselho. O vale-refeição do trabalhador virou moeda de troca no balcão do Estado. E ainda vendem isso como defesa do consumidor.
O mais eloquente da reação do mercado ao balanço é o que ninguém está dizendo nas manchetes. A ação subiu não porque a Edenred fez algo extraordinário, subiu porque o capital reconheceu que existe uma empresa capaz de continuar rentável mesmo quando o jogo foi desenhado contra ela. Isso é prêmio de resiliência, não prêmio de performance. E prêmio de resiliência só existe em ambientes onde o risco principal não é o competidor, é o legislador. Quando o investidor precisa calcular a probabilidade da próxima emenda parlamentar antes de calcular a próxima demanda do mercado, algo está profundamente invertido na ordem das coisas.
Resta a lição que os comentaristas de televisão vão ignorar novamente amanhã. A empresa entregou resultado porque o mercado de benefícios, mesmo espremido, ainda é mais eficiente que qualquer sistema estatal equivalente jamais sonhou ser. A receita subiu porque o trabalhador e o empregador continuam preferindo o cartão privado ao cupom oficial, e continuam pagando por ele de bom grado. Toda vez que alguém propõe substituir esse arranjo por um sistema público, universal, gratuito e controlado, vale perguntar quem exatamente vai operar a logística de trinta milhões de refeições diárias, e com qual competência. A resposta honesta é desconfortável, e por isso ela nunca é dada em voz alta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.