A Fluor entregou resultados abaixo do esperado e o mercado fez o que o mercado faz quando enxerga o que estava embaixo do tapete, derrubou o papel em 5% num único pregão. A imprensa econômica vai tratar isso como notícia técnica, falar de margem, de backlog, de execução de projetos, e seguir adiante como se nada tivesse acontecido. Mas quem olha com atenção percebe que a história aqui é outra, e ela explica muito mais do que uma linha de balanço trimestral.
A Fluor é uma daquelas empresas que construíram sua existência inteira sobre a fronteira nebulosa entre o setor privado e o setor público. Megaprojetos de engenharia, contratos de defesa, obras de infraestrutura energética, parcerias com agências federais americanas, programas de descomissionamento nuclear pagos pelo contribuinte, projetos de óleo e gás dependentes de licenciamento estatal e de subsídios cruzados. Tire o Estado da equação e a empresa some. Quer dizer, o que o mercado está precificando hoje não é a competência da Fluor em executar projetos, é a fragilidade estrutural de qualquer negócio que vive amarrado ao orçamento alheio.
Olha, existe uma ilusão muito disseminada de que empresas grandes que ganham contratos públicos são exemplos de eficiência capitalista. Não são. São hospedeiras de um arranjo onde o lucro é privado e o risco é socializado. O cidadão comum financia, via imposto, projetos que ele não escolheu, executados por empresas que ele não contratou, com sobrecustos que ninguém audita de verdade, e quando o resultado vem aquém do prometido a conta fica com quem? Com o acionista pequeno, que descobre no extrato que sua poupança encolheu 5% num dia, e com o contribuinte, que continua pagando o financiamento dos próximos megaprojetos como se nada tivesse acontecido.
O que se vê é a queda da ação. O que não se vê é a montanha de capital que foi desviado, ao longo de décadas, de empreendimentos genuinamente produtivos para alimentar essa simbiose entre conglomerados de engenharia e burocracias estatais. Cada dólar que o Tesouro americano injetou em programas dos quais a Fluor vive é um dólar que não foi para uma startup, para uma pequena empresa, para um inventor solitário, para um sujeito qualquer poupando para abrir um negócio. A janela quebrada do orçamento público é sempre celebrada como geração de empregos, e ninguém pergunta pelos empregos que jamais existiram porque o capital foi sequestrado antes.
Me diz uma coisa, qual é a diferença entre essa estrutura e o velho mercantilismo que os manuais condenam quando o assunto é o século dezessete? Nenhuma de fundo. Trocaram-se as companhias monopolistas com cartas régias por gigantes de capital aberto com contratos federais, mas o esqueleto é idêntico, governos escolhendo vencedores, vencedores capturando reguladores, reguladores escrevendo as próximas regras de licitação que só os capturadores conseguem cumprir. O capitalismo de compadrio não é uma falha do sistema, é o sistema, sempre que se permite que o Estado decida quem ganha.
A queda da Fluor é, portanto, um pequeno momento de honestidade do mercado num oceano de mentiras institucionais. Por um instante, os preços disseram a verdade que os relatórios oficiais não dizem, que a empresa vale menos do que aparentava, porque o modelo de negócio inteiro vale menos do que aparenta. O remédio não é mais subsídio, mais contrato emergencial, mais programa de incentivo. O remédio é deixar essas empresas competirem de verdade, sem o cordão umbilical do Tesouro, e descobrir, na prosa fria dos balanços, quanto realmente sobra quando o privilégio acaba. Mercado livre não é o que dói, é o que cura. O resto é teatro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.