A notícia é curtinha e cabe num post-it: a Gemini Space Station, conhecida no ramo cripto, lançou uma plataforma de inteligência artificial e viu suas ações subirem na sequência. Pronto. Esse é o fato. Em torno desse fato microscópico, montou-se a coreografia habitual de Wall Street, com analistas comentando "o potencial transformador", consultores recalibrando "a tese de investimento" e influenciadores de YouTube descobrindo, em tempo recorde, que sempre acreditaram no projeto. Quer dizer, ninguém leu o whitepaper, ninguém sabe direito o que a tal plataforma faz, ninguém auditou linha de código, mas a ação sobe. Curioso, não?

Olha, esse roteiro tem cheiro de mofo. Na bolha das pontocom, bastava acrescentar ".com" ao nome da empresa e o papel disparava. Em 2017, era só colocar "blockchain" no comunicado e o mesmo milagre acontecia, com padarias virando techs e mineradoras de níquel virando custodiantes de bitcoin da noite para o dia. Agora, troque a palavrinha mágica por "IA" e tem a mesma cena, com os mesmos atores, vendendo o mesmo bilhete de loteria para o mesmo público crédulo. A novidade da humanidade é não ter novidade nenhuma quando o assunto é euforia financeira.

O ponto que ninguém quer comentar é mais simples do que parece: por que uma empresa de criptoativos, cujo negócio original é intermediar compra e venda de moedas digitais, de repente vira gigante da inteligência artificial? A resposta honesta é que não virou. Acrescentou um produto, talvez um wrapper sobre algum modelo de terceiro, talvez uma camada de marketing sobre algo que já existia, e empacotou como salto tecnológico. O preço da ação não respondeu ao valor gerado, respondeu à narrativa apresentada. E narrativa, no mercado de capitais, é mercadoria mais lucrativa que software.

Siga o dinheiro e o quadro se ilumina. Quem ganha quando a ação sobe trinta por cento numa tarde sem que nada de concreto tenha mudado no balanço da empresa? Os insiders que já estavam posicionados, os fundos que entraram cedo na fofoca, os executivos com pacotes atrelados ao preço do papel, os bancos que assessoraram a comunicação. Quem perde? O sujeito que ligou a televisão, viu manchete entusiasmada, abriu o aplicativo da corretora e comprou no topo, acreditando estar embarcando no futuro. Esse sujeito vai segurar a batata quente quando a euforia evaporar e o preço retornar ao chão. O nome técnico disso é transferência de riqueza dos ingênuos para os informados. O nome popular é outro, e não cabe em jornal.

Existe ainda o pano de fundo monetário, que é onde o circo realmente acontece. Quando os bancos centrais inundam o sistema com liquidez barata, o dinheiro precisa achar destino, e ele vai naturalmente para os ativos mais especulativos disponíveis. Não é coincidência que cada onda de euforia tecnológica das últimas três décadas tenha acontecido logo depois de uma rodada generosa de afrouxamento monetário. A IA, neste momento, não está sendo precificada como tecnologia, está sendo precificada como recipiente para o excesso de moeda que ninguém sabe onde colocar. Quando a maré seca, descobre-se quem estava nadando pelado, e a fila costuma ser longa.

O recado para o leitor é singelo e desagradável. Tecnologia gera riqueza quando entrega produtividade real, quando reduz custos verdadeiros, quando resolve problemas que as pessoas estão dispostas a pagar para ver resolvidos. Tudo o mais é teatro de preço, e teatro de preço sempre termina com cortina caindo na cabeça de quem chegou por último. A inteligência artificial vai mudar muita coisa nos próximos anos, isso é provavelmente verdade. Mas a maioria das empresas que estão hoje pintando o logotipo de IA vão sumir tão silenciosamente quanto sumiram as que pintaram de pontocom, de blockchain e de metaverso. Quem comprou hype comprou ar; quem comprou negócio comprou negócio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.