Olha o roteiro: uma das empresas mais valiosas do planeta, sentada sobre dezenas de bilhões em caixa, recebe um bilhão de dólares do Tesouro americano para tocar um projeto de computação quântica, e o papel dispara 6,6% no pregão. Wall Street não é boba. Wall Street entendeu na hora o que o noticiário econômico ainda finge não enxergar: aquele bilhão não é investimento, é subsídio, e subsídio é dinheiro que sai do bolso de quem trabalha e entra na conta de quem tem lobista bom.
Me diz uma coisa, se o projeto de computação quântica da IBM fosse mesmo a próxima galinha dos ovos de ouro, por que os acionistas da própria IBM, ou qualquer fundo de venture capital com pulso na carótida, não correriam para financiá-lo? A resposta incomoda os jornalistas econômicos, mas é simples: porque o risco é alto, o retorno é incerto, e o capital privado, quando arrisca o próprio pescoço, pensa duas vezes. O capital público, esse, arrisca o pescoço alheio. E quando o burocrata escolhe o vencedor da corrida tecnológica antes da largada, ele não está apostando, ele está distribuindo.
O que se vê é a manchete bonita sobre inovação, soberania tecnológica, corrida contra a China, essa retórica de boteco geopolítico que serve para qualquer coisa. O que não se vê é a fila de pequenas empresas, startups com tecnologias possivelmente superiores, que jamais terão acesso a esse oceano de capital porque não têm departamento jurídico em Washington nem ex-secretário de Estado no conselho. O que não se vê é o contribuinte americano financiando a P&D de uma multinacional que pagará dividendos para fundos de investimento globais. O que não se vê é a distorção de preços, a sinalização errada que esse cheque manda para toda a indústria, dizendo que o caminho do sucesso não passa mais por servir clientes melhor, e sim por servir burocratas melhor.
E aí está a beleza perversa do arranjo: o mercado, esse mecanismo maravilhoso de descobrir verdades, precificou corretamente o evento. As ações subiram porque os traders sabem que receita garantida por governo vale mais que receita conquistada no suor. Eles não estão celebrando a tecnologia, estão celebrando o contrato. É a velha aliança entre o grande capital e o grande Estado, aquele matrimônio sujo que os manuais de capitalismo de livre mercado fingem não existir e que, na prática, sustenta metade do PIB das economias ocidentais modernas.
O nome técnico disso, para quem gosta de termos limpos, é capitalismo de compadrio. O nome popular é toma lá dá cá. O nome honesto seria roubo institucionalizado, porque o cidadão comum, que paga imposto e nunca foi consultado se queria financiar a quantum computing da IBM, virou sócio compulsório de um negócio do qual jamais verá dividendo. A diferença entre o ladrão do beco e o lobista de K Street é que o segundo tem cartão de visita e o primeiro vai preso.
Quando a computação quântica finalmente entregar algo útil, daqui a uma década ou três, a IBM cobrará o preço cheio do mesmo contribuinte que já pagou a pesquisa. E os economistas de plantão chamarão isso de milagre da inovação americana. Não é milagre. É o esquema mais antigo do mundo, vestido de jaleco branco e gravata de seda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.