A ação da Intel encostou em US$ 95,73 e os analistas de terno bem cortado fizeram o de sempre, vestiram a cara de espanto reverente e atribuíram o feito à genialidade da gestão, ao ciclo dos semicondutores, à inteligência artificial, àquela coleção de chavões que serve para qualquer alta de qualquer ativo em qualquer mês do calendário. Acontece que existe uma parte da história que o gráfico não mostra, e essa parte começa em Washington, passa por Bruxelas e desemboca no contracheque de gente que nunca pisou numa corretora.

O CHIPS Act despejou cifras de onze dígitos no setor, com a Intel recebendo o naco mais gordo do bolo, algo na casa dos bilhões diretos somados a empréstimos subsidiados, créditos tributários e a promessa implícita de que, se o negócio azedar, o Tio Sam segura a queda. Some a isso a participação acionária do governo americano na empresa, formalizada com naturalidade orwelliana, e você tem um arranjo que nenhum manual de capitalismo reconheceria, mas que toda corte mercantilista do século dezessete entenderia de imediato. Aliás, era assim que se faziam as Companhias das Índias, monopólios privados com cobertura estatal, lucro privatizado, risco socializado.

Aí o sujeito olha o gráfico subindo e pensa que está vendo competência. Não está. Está vendo o que os preços fazem quando deixam de ser sinais e viram propaganda. Quando o capital flui porque o burocrata decretou que aquele setor é estratégico, o investidor não está alocando recursos, está apostando em decreto. E quem aposta em decreto perde no dia em que a caneta muda de mão, porque o mesmo poder que enche o copo é o que pode virá-lo na próxima manhã.

Pergunte-se, sinceramente, onde estaria a Intel hoje sem o cheque do contribuinte, sem a mão protetora da tarifa contra concorrente asiático, sem a encomenda militar garantida, sem o cordão umbilical regulatório que separa a empresa do julgamento implacável do consumidor. Provavelmente estaria fazendo o que mercado faz com gigantes preguiçosos, sendo dilacerada por concorrentes mais ágeis, perdendo participação para quem inova de verdade, ou se reinventando à força porque o caixa apertou. Em vez disso, foi resgatada do desconforto pedagógico do prejuízo e instalada num spa corporativo com piscina aquecida bancada por gente que mal completa o tanque do carro.

O nome bonito disso é política industrial. O nome honesto é capitalismo de compadrio com selo de segurança nacional. Toda vez que o Estado escolhe vencedor, está, na mesma operação, escolhendo perdedor, e os perdedores são as mil empresas menores que não tiveram lobby em Washington, os investidores cujo capital foi sugado via inflação para financiar o brinde, os consumidores que pagarão chips mais caros porque a concorrência foi suavizada, e o setor inteiro que perderá a disciplina que só o medo da falência ensina. O que se vê é a Intel a noventa e cinco dólares. O que não se vê é o ecossistema empreendedor que jamais nascerá porque o capital foi desviado para o gigante já estabelecido.

E quando o ciclo virar, e ele sempre vira, porque toda festa montada em crédito artificial e subsídio termina com a luz acesa e a conta na mesa, esses mesmos analistas surgirão com cara de surpresa explicando que ninguém poderia ter previsto. Poderia, sim. Bastava saber ler o que está escrito em letras pequenas no contrato silencioso entre o poder e o dinheiro grande. A bolsa aplaude o número. O cidadão paga a entrada, o ingresso, a pipoca e ainda leva o boleto da limpeza do teatro pra casa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.