A ação da Johnson Controls bateu US$ 146,55, máxima histórica, e a manchete saiu daquele jeito celebratório de sempre, como se um papel subindo fosse sinônimo automático de empresa próspera, economia saudável e investidor recompensado pela sabedoria. Quer dizer, antes de aplaudir, vale fazer uma pergunta que ninguém na CNBC quer formular em voz alta: por que uma fabricante de sistemas de ar-condicionado, controles prediais e refrigeração industrial, negócio sólido mas absolutamente cíclico, está sendo precificada como se fosse a próxima fronteira da inteligência artificial? A resposta não está nos fundamentos da empresa. Está na impressora.
Olha, a Johnson Controls é uma boa companhia, com mais de cem anos de história, margens razoáveis e um portfólio que faz sentido num mundo que precisa resfriar prédios e otimizar consumo energético. Nada disso justifica, sozinho, o ritmo de valorização que se vê no papel. O que justifica é outra coisa: a expectativa, ou melhor, o vício, de que o banco central americano vá cortar juros assim que o vento mudar, despejando mais liquidez num mercado que já navega em oceano de dinheiro fabricado do nada. Cada novo recorde de índice acionário, cada nova máxima histórica de empresa estabelecida, é menos um voto de confiança no negócio e mais um voto de desconfiança no dólar.
Me diz uma coisa, quando o preço de quase tudo sobe ao mesmo tempo, da casa em Miami à ação industrial em Wisconsin, passando pelo ouro, pela arte contemporânea e pela cripto, o que está subindo de verdade? Não é o valor das coisas. É a quantidade de moeda perseguindo as mesmas coisas. A diferença entre prosperidade real e ilusão monetária é exatamente essa: na primeira, ganhos vêm de produtividade, inovação, acumulação de capital genuíno; na segunda, vêm da degradação silenciosa do padrão de medida. Os economistas de banco chamam isso de bull market. O nome correto é diluição.
E aqui entra a parte que ninguém comenta porque atrapalha o almoço grátis. Os fundos passivos, os ETFs gigantes, os planos de pensão obrigados por mandato a comprar índice, todos eles empurram capital indiscriminadamente para os mesmos papéis, premiando o tamanho e não o mérito. A Johnson Controls não está cara porque alguém analisou friamente o fluxo de caixa descontado e concluiu que vale isso. Está cara porque entrou na lista certa, porque recebe bilhões automatizados todo mês, porque virou componente de um mecanismo que compra sem pensar. É o triunfo da alocação cega, da gestão sem responsabilidade, do investimento sem investidor.
O que se vê é a manchete bonita. O que não se vê é o aposentado americano, ou brasileiro com fundo dolarizado, comprando topo histórico achando que está fazendo poupança quando está, na prática, herdando o passivo da próxima correção. O que não se vê é a pequena empresa que não consegue capital porque o dinheiro fácil só flui para quem já é grande, listado, indexado. O que não se vê é o sinal que o sistema de preços deveria estar mandando, agora completamente embaralhado por uma década e meia de juro real negativo, balanço inflado de banco central e socorro garantido a cada tropeço.
O recorde da Johnson Controls não é causa de comemoração, é sintoma de diagnóstico. A festa continua enquanto a impressora gira, e gira porque ninguém em Washington tem estômago para enfrentar a ressaca de parar. No dia em que a banda parar de tocar, e ela sempre para, vai sobrar pergunta retórica nos jornais sobre quem podia ter previsto. Todo mundo podia. Quase ninguém quis.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.