A notícia chegou embrulhada em papel de presente, como sempre chega: a Laser Photonics foi selecionada para fornecer tecnologia de limpeza a laser num contrato de defesa, os papéis dispararam no pregão, analistas correram para revisar projeções e o noticiário econômico tratou o evento como prova de pujança tecnológica. Olha, é preciso ter uma dose generosa de ingenuidade, ou de cinismo bem treinado, para confundir contrato governamental com vitória de mercado. Quando uma empresa sobe na bolsa porque o Pentágono apontou o dedo para ela, não estamos diante de um triunfo do capitalismo, estamos diante de um triunfo do capitalismo de compadrio, que é coisa bem diferente e bem mais antiga.

Quer dizer, o que aconteceu ali, em termos econômicos honestos? Um burocrata, sentado numa sala climatizada em Washington, decidiu que entre dezenas de empresas potencialmente capazes de fornecer aquela tecnologia, esta seria a escolhida. Os critérios? Opacos. Os concorrentes preteridos? Silenciados. O dinheiro? Não saiu do bolso de quem escolheu, saiu do bolso do contribuinte americano, aquele sujeito que trabalha das oito às seis e acha que está pagando imposto para consertar a estrada do bairro. E o mercado, em vez de farejar o problema, festejou. É como aplaudir o sorteio da loteria como se fosse meritocracia.

Me diz uma coisa: se a tecnologia da Laser Photonics era realmente superior, por que ela precisou da bênção estatal para ver suas ações subirem? Empresas que vencem no mercado livre sobem porque consumidores, milhões deles, decidem voluntariamente trocar dinheiro por produto. Empresas que sobem por contrato de defesa sobem porque um único cliente, com bolso infinito alheio e nenhuma pressão por eficiência, assinou um cheque. São lógicas opostas, e tratar uma como se fosse a outra é o tipo de confusão conceitual que faz analistas de banco soarem como crianças explicando física quântica depois de tomar refrigerante.

E há o que não se vê, que é sempre a parte mais importante da história. Cada dólar canalizado para esse contrato é um dólar que não está na economia produtiva, financiando uma padaria, uma startup de biotecnologia que não tem lobista em Washington, ou simplesmente ficando no bolso de quem o ganhou. Os empregos criados pela Laser Photonics nesse contrato aparecerão nas estatísticas oficiais, sorrindo para a câmera. Os empregos não criados na economia real, esses não terão coletiva de imprensa. Ninguém vai entrevistar o empreendedor que desistiu de contratar porque o imposto subiu para sustentar o orçamento militar inflado. O visível ganha manchete, o invisível paga a conta.

Existe ainda uma camada mais incômoda, que é a transformação da própria natureza da empresa. Companhia que vive de contrato governamental aos poucos para de servir o consumidor e passa a servir o burocrata. Reorganiza departamentos para agradar comitês, contrata ex-funcionários do governo como consultores, doa para campanhas dos dois lados por precaução, e em alguns anos já não é mais uma empresa de tecnologia, é um apêndice do Estado vestido com gravata corporativa. O acionista que entrou hoje achando que comprou inovação descobrirá, daqui a uma década, que comprou dependência. E dependência, no longo prazo, é o oposto de valor.

A festa de hoje é a ressaca de amanhã, e o pregão americano, viciado em estímulo estatal, já não consegue distinguir crescimento de inchaço. Quando aplaudir contrato militar virou estratégia de investimento, o problema não está mais na empresa, está na cultura financeira inteira, que esqueceu o que significa criar riqueza de verdade. Lucro arrancado do contribuinte não é lucro, é transferência. E transferência fantasiada de mérito é a forma mais elegante de roubo que a modernidade inventou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.