Lattice Semiconductor, a fabricante de FPGAs de baixo consumo que vive na sombra da Nvidia, acabou de bater US$ 126,36, máxima absoluta da história da empresa. Ninguém convocou uma reunião, ninguém aprovou um decreto, ninguém criou um conselho interministerial de fomento à indústria de semicondutores programáveis. O preço subiu porque compradores apareceram, vendedores recuaram, e o mecanismo mais antigo e mais inteligente que a humanidade já produziu fez seu trabalho silencioso. Quer dizer, enquanto ministério da indústria de país nenhum conseguia sequer entender o que é um FPGA, o capital privado já tinha mapeado a empresa, precificado o crescimento, e despejado bilhões num pedaço de silício que cabe na ponta de um dedo.
Olha, o detalhe importante está no que as pessoas não veem. Cada centavo dessa valorização representa informação. Informação sobre demanda futura de chips para edge computing, sobre ciclo de capex em data centers, sobre a tese de que inteligência artificial vai precisar não só dos monstros da Nvidia, mas também de chips menores, mais baratos, reprogramáveis, espalhados em milhões de dispositivos. Essa informação está distribuída entre engenheiros, fundos, investidores de varejo, executivos de compras, gente que nunca se encontrou e nunca se encontrará. O preço de US$ 126,36 é a síntese matemática desse conhecimento espalhado pelo planeta. Tente substituir isso por um comitê. Bom apetite.
E aí entra a piada amarga brasileira. Enquanto Lattice dispara em Wall Street, o nosso parque industrial de semicondutores continua sendo aquela velha promessa de programa de governo, com PowerPoint colorido, ministro sorrindo na foto, e zero chip saindo da fábrica. Bilhões já foram torrados em iniciativas estatais que nasceram mortas porque foram concebidas pela lógica do planejador, não pela do empreendedor. O empresário americano que comprou Lattice em 2019 a US$ 5 e hoje vê US$ 126 não precisou de subsídio, não precisou de BNDES, não precisou de "política industrial". Precisou de capital, propriedade privada respeitada e tribunais que funcionam. Coisas que aqui ainda tratamos como luxo opcional.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Quem ganhou com essa alta? Acionistas, funcionários com stock options, fundos de pensão de professores aposentados em Ohio, fundos soberanos do golfo, investidores brasileiros que tiveram a coragem de escapar do circo da B3 e mandar dólar para fora. Quem perdeu? Ninguém. Não há vítima. Não há contribuinte sangrando para financiar lobista. Não há subsídio escondido na conta de luz. É apenas troca voluntária entre adultos consentindo, aquela coisa primitiva que governos modernos parecem ter esquecido que existe e funciona melhor que qualquer engenharia social.
O fato concreto, o que está diante dos olhos, é que o capitalismo continua sendo a única máquina conhecida de transformar incerteza em prosperidade. A cada nova máxima dessas, milhões de pessoas ganham um pedaço da inovação alheia simplesmente por terem confiado num pedaço de papel chamado ação. É feio, é caótico, é desigual, é tudo aquilo que os colunistas de jornal grande adoram detestar nos editoriais de domingo. E é também o que pagou o aparelho de ressonância magnética do hospital onde esse mesmo colunista vai fazer exame ano que vem.
Resta a pergunta que ninguém em Brasília quer ouvir. Por que é que nenhuma Lattice nasce aqui? A resposta não está em falta de talento, falta de engenheiro, falta de ideia. Está na pilha de regulação, na carga tributária que estrangula no berço, no judiciário que demora uma década para resolver disputa contratual, no sindicalismo fossilizado, no medo permanente de que o governo da vez resolva mudar as regras no meio do jogo. Mercado livre não é teoria abstrata de economista de Chicago. É o ar que falta ao empreendedor brasileiro todo dia da sua vida.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.