A ação da Lumentum Holdings cravou US$ 962,56 e o noticiário financeiro tratou o evento com a solenidade de quem assiste à coroação de um novo monarca. A empresa fabrica componentes ópticos, lasers, módulos para data center, peças que alimentam a infraestrutura de inteligência artificial, e por isso, dizem, o céu é o limite. Pode até ser. Mas antes de aplaudir o suposto milagre da inovação, convém perguntar uma coisa simples que ninguém na CNBC quer responder: de onde vem todo esse dinheiro que persegue qualquer papel com cheiro de IA como cachorro atrás de osso?

O preço de uma ação não é um oráculo da virtude empresarial. É um termômetro daquilo que existe de capital flutuando por aí, sem destino e com pressa. Quando bancos centrais do mundo inteiro inundam o sistema com liquidez por mais de uma década, depois fingem que normalizam, depois voltam a sinalizar cortes ao primeiro espirro de mercado, o resultado é exatamente este: uma manada de capital nervoso saltando de hype em hype, da pandemia para o metaverso, do metaverso para a IA, da IA para o que vier depois. Os fundamentos vêm a reboque, quando vêm. O que se vê é o gráfico subindo. O que não se vê é a moeda perdendo poder de compra silenciosamente, enquanto os ativos financeiros engordam para esconder essa perda.

Há um detalhe interessante na história da Lumentum que poucos comentam. Boa parte da receita depende de pouquíssimos clientes, alguns deles os próprios megacaps que sustentam o índice americano nas costas. Quer dizer, é uma cadeia em que gigantes compram de fornecedores especializados que vendem quase exclusivamente para esses mesmos gigantes, e todos juntos giram numa roda de capex bilionário financiado por dívida barata e expectativa de retorno futuro que ninguém sabe direito quando virá. Já vimos esse filme. Em 2000, chamava-se telecom. Em 2008, chamava-se subprime. Em 2026, chama-se IA. O figurino muda, o roteiro é o mesmo: dinheiro fácil cria estrutura de produção que só se sustenta enquanto o dinheiro continuar fácil.

O ponto não é torcer contra a empresa, que faz produto real e atende demanda real. O ponto é entender que máxima histórica em ano de juro alto, com economia americana supostamente desacelerando e geopolítica em frangalhos, não é sinal de saúde do capitalismo. É sinal de que o sistema monetário ocidental virou uma máquina de empurrar precificação para cima enquanto a economia produtiva tenta acompanhar de muleta. O sujeito que aplica suas economias num ETF de tecnologia acha que está investindo em inovação. Está, em parte. Mas está também subsidiando o festival da liquidez, comprando na alta um ativo que vale o que vale porque o dinheiro alheio continua chegando atrás dele.

Vai dar errado? Talvez não nesta semana, nem neste trimestre. Os booms artificiais têm a peculiaridade cruel de durar sempre mais do que o cético prevê e bem menos do que o entusiasta promete. Quando a maré virar, e ela sempre vira, descobriremos quem estava nadando pelado. Os fundos que entraram na Lumentum a US$ 200, US$ 400, US$ 700 sairão antes, com lucro polpudo. O investidor de varejo que comprar a US$ 962 porque o Instagram disse que IA é o futuro vai segurar o mico, como sempre segura. E o discurso oficial, depois, será o de sempre: ninguém viu chegar, foi um cisne negro, ninguém poderia prever.

Poderia, sim. Bastava olhar para a impressora.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.