A Micron Technology fechou o pregão cravando US$ 472,02 por ação, recorde histórico, e os analistas de bancão já correram para explicar o fenômeno com a liturgia de sempre, ciclo favorável de memórias, demanda insaciável por chips de inteligência artificial, gargalo de oferta, revolução tecnológica. Tudo verdade parcial, tudo verdade conveniente. O que ninguém quer explicar é por que uma empresa que há dois anos valia menos de um terço disso agora vale o preço de uma mansão por papel. Memória DRAM não triplicou de utilidade, a física do silício não mudou, o que mudou foi o oceano de liquidez que precisa de algum lugar para afogar.
Olha, toda vez que um setor inteiro dispara desse jeito, o investidor ingênuo pensa em inovação, e o investidor experiente pensa em juros. Quando o custo do dinheiro é artificialmente baixo, o capital busca retorno como água busca buraco, e o buraco da vez se chama inteligência artificial. Empresas listadas sob o guarda chuva mágico da IA viraram o novo ouro da febre californiana, e a Micron, por fornecer a memória que alimenta os chips da Nvidia, virou pá, picareta e bateia ao mesmo tempo. O problema é que a história econômica não conhece febre de ouro que termine bem para quem chegou depois da segunda onda.
Quer dizer, é curioso como o mesmo jornalismo financeiro que em 2001 celebrava a Cisco a caminho do trilhão, em 2008 celebrava o imobiliário americano como ativo seguro, e em 2021 celebrava as techs pós pandemia, agora celebra a Micron sem piscar. A estrutura é idêntica, a música é a mesma, só trocam os instrumentos. Expansão monetária gera boom, boom gera narrativa, narrativa gera entrada de varejo no topo, topo gera distribuição para quem sabe, e o bust chega quando o crédito seca. A única coisa que muda é o setor escolhido pela impressora para embalar a próxima tragédia.
Me diz uma coisa, se essa valorização fosse fruto apenas de fundamento produtivo, por que os múltiplos de preço sobre lucro estão onde estão, por que o setor inteiro sobe junto como se coordenado por maestro invisível, por que o dinheiro novo entra em fundos passivos que compram tudo sem olhar preço? A resposta óbvia, que o economista de banco central nunca vai assinar, é que não estamos vendo riqueza sendo criada, estamos vendo moeda sendo distribuída de forma desigual para os ativos mais próximos da torneira. Quem está perto do Federal Reserve ganha primeiro, quem está no fim da fila paga a conta na gôndola do supermercado.
E aqui entra a parte que o colunista do jornal grande nunca vai escrever, porque depende de anunciante que depende de taxa baixa. A festa da Micron é a mesma festa do Bitcoin a 130 mil, do ouro rompendo máximas, do imobiliário de Miami precificado em planeta alienígena. São todos sintomas da mesma doença, a desconfiança silenciosa e crescente de que o dólar, o real e o euro perderam a âncora, e que guardar valor em papel emitido por tesouro endividado virou esporte para otário. O investidor que compra Micron a 472 não está apostando em memória, está apostando que existe alguém mais desesperado que ele disposto a pagar 500.
No fim, o recorde da Micron é menos uma notícia sobre tecnologia e mais um termômetro da degradação monetária ocidental. Enquanto o banco central americano finge que controla a inflação com a mão esquerda e libera liquidez pela direita, o capital fica tonto, entra em pânico silencioso, e se agarra ao primeiro ativo que parece escapar da erosão. A festa vai continuar até o dia em que não continuar, e aí vão culpar a ganância do mercado, como sempre culpam, poupando o verdadeiro autor do estrago, aquele senhor respeitável de gravata que decide sozinho quanto papel imprimir amanhã. Todo recorde nominal é uma lápide da moeda, e esta aqui está bem polida.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.