A Mosaic bateu a mínima de 52 semanas a US$ 23,04 e a manada dos analistas de banco sai correndo atrás de "fatores macro adversos", como se o preço de uma ação fosse fenômeno climático. Não é. Quando uma das maiores produtoras de fertilizantes do planeta perde sustentação, o que está se revelando não é fraqueza pontual, é a estrutura podre de um setor que aprendeu a respirar pelo aparelho do dinheiro fácil e da política agrícola comandada por governo.
Olha, fertilizante é commodity, e commodity vive de dois preços, o do produto vendido e o do crédito que financia o estoque. Quando o banco central americano apertou a torneira para conter a inflação que ele mesmo fabricou na pandemia despejando trilhões na economia, toda empresa intensiva em capital começou a sangrar pelos juros. A Mosaic carrega dívida, carrega capex, carrega um ciclo de caixa longo, e agora descobre que aquele boom de 2022, quando potássio e fosfato foram às alturas com a guerra na Ucrânia, era boom artificial, criança gerada pela ressaca monetária dos anos anteriores. O que sobe pela impressora desce pela calculadora.
Quer dizer, e tem mais. Siga o dinheiro do agro mundial e você vai esbarrar num festival de subsídio cruzado, tarifa, cota de importação, política de preço mínimo, BNDES, Farm Bill americano, programa de fertilizante chinês, embargo russo, sanção bielorrussa. A Mosaic não compete num mercado livre, compete num tabuleiro político onde cada peça é movida por um burocrata que nunca plantou uma semente na vida. Quando o jogo é esse, a empresa que parecia sólida revela-se refém. Basta Pequim liberar exportação de ureia, basta a Rússia voltar ao mercado por debaixo do pano, basta o Tesouro americano reprecificar o custo do dinheiro, e a tese de investimento vira pó.
O que se vê é a ação caindo. O que não se vê é o produtor rural brasileiro que pagou caro pelo fertilizante de 2022 acreditando que o preço era de mercado, quando na verdade era de cartel geopolítico. O que não se vê é o consumidor que paga mais pela comida porque a cadeia inteira foi distorcida por décadas de protecionismo, capitalismo de compadrio e bancos centrais brincando de Deus com a taxa de juros. A Mosaic é apenas o sintoma visível de uma doença bem mais antiga, a ilusão de que dá para planejar a alimentação do mundo na sala de reunião de comitês monetários e ministérios da agricultura.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que o preço de uma ação reflete o desempenho da empresa? Reflete a expectativa sobre quanto dinheiro o governo vai imprimir, quanto subsídio vai distribuir, quanta sanção vai aplicar e quanta regulação ambiental vai inventar amanhã para travar mineração de fosfato em algum canto do mundo. A Mosaic está a US$ 23,04 não porque produz mal, mas porque vive num ecossistema onde o cálculo econômico foi sequestrado pelo cálculo político. E cálculo político, ensinava a história, sempre termina com alguém pagando a conta. Geralmente quem menos pode.
O tombo da Mosaic não é tragédia, é diagnóstico. É o mercado fazendo o que ainda lhe restou de função num mundo cheio de muletas estatais, dizer a verdade sobre o valor das coisas. Aproveite enquanto ele ainda pode dizer.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.