A notícia chegou seca como toda notícia que importa. A Nojima, rede de varejo de eletrônicos que boa parte dos brasileiros nunca ouviu falar, anunciou intenção de comprar a divisão de eletrodomésticos da Hitachi, e as ações dispararam na bolsa de Tóquio. Tradução para quem não acompanha pregão asiático: investidores gostaram. Gostaram muito. E por um motivo que qualquer pessoa com dois neurônios funcionando deveria entender sem precisar de MBA em Harvard.

A Hitachi foi, durante décadas, o arquétipo do conglomerado japonês que fazia tudo: trem-bala, reator nuclear, disco rígido, ar-condicionado, geladeira, elevador, turbina. O tipo de empresa que os planejadores adoram porque parece sólido, diversificado, nacional, estratégico. Só que conglomerado faz uma coisa muito bem: esconder ineficiência. A divisão que dá prejuízo é maquiada pela que dá lucro, o executivo medíocre é protegido pela estrutura, e o capital que deveria estar alocado em alta produtividade fica preso segurando linha de produto que deveria ter sido vendida há dez anos. O mercado sabe disso. O mercado sempre soube.

Veja o que aconteceu. A Hitachi, depois de anos de reestruturação silenciosa, decidiu que eletrodoméstico de linha branca não é mais o seu jogo. E em vez de manter a divisão definhando dentro de casa por orgulho corporativo, coloca à venda. A Nojima, especialista em varejo, olha para aquilo e vê o que a Hitachi não conseguia mais ver: um ativo que, nas mãos certas, com foco, com gestão dedicada, volta a gerar valor. É o sistema de preços fazendo sua mágica silenciosa, o que os burocratas de ministério de indústria jamais conseguem replicar com plano quinquenal, incentivo fiscal e conselho tripartite.

Agora imagine por um instante que a Hitachi fosse brasileira. A divisão estaria há décadas sendo salva por BNDES a juro subsidiado, protegida por tarifa de importação, acolchoada por conteúdo nacional obrigatório, e qualquer tentativa de venda viraria escândalo nacional com deputado batendo no peito em plenário falando em soberania industrial. O resultado seria o de sempre: geladeira cara, consumidor pagando a conta, acionista minoritário levando prejuízo e político tirando foto de capacete na fábrica que o contribuinte sustenta. No Japão, com todos os defeitos que o Japão tem, o capital pelo menos consegue se mover. Aqui, o capital é preso em caixa de vidro industrial enquanto o país inteiro empobrece educadamente.

E tem mais. O fato de a ação da Nojima subir e não cair diz algo que os críticos do livre mercado fingem não entender. O mercado não está apostando em monopólio, cartel ou espertinha; está apostando em foco. Empresa que compra o que sabe operar e vende o que não sabe gera riqueza, empresa que acumula divisão só para parecer grande gera folha de pagamento inchada e burocracia interna. A diferença entre uma economia que cresce e uma economia que apenas inflaciona PIB no relatório oficial está exatamente aí, naquele pequeno detalhe que passa despercebido no noticiário apressado.

Enquanto isso, no Brasil, continuaremos discutindo se o Estado deve ter participação estratégica em tudo que respira, se é preciso mais um fundo soberano para salvar setor que ninguém quer, e se a solução para a indústria nacional é mais imposto sobre produto importado. Os japoneses, com toda a sua burocracia interna e todos os seus problemas demográficos, entenderam uma coisa que a elite política brasileira finge não saber: capital mal alocado é riqueza destruída, e conglomerado eterno é museu com folha de pagamento.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.