A Akzo Nobel, gigante holandesa de tintas, recusou a proposta de aquisição que estava sobre a mesa, e a reação foi imediata: as ações da PPG e da RPM, concorrentes diretas no setor, subiram. Olha, isto é mercado funcionando em estado puro, o sistema mais sofisticado de processamento de informação que a humanidade já produziu operando em tempo real. Em questão de minutos, milhões de pessoas com pedaços diferentes do quebra-cabeça, fundos, analistas, investidores individuais, traders algorítmicos, chegaram a uma conclusão coletiva sobre o valor das partes envolvidas. Nenhum comitê precisou se reunir. Nenhum ministro precisou opinar. Nenhuma "câmara setorial" precisou deliberar.

E o veredito foi claro: a tentativa de consolidação, que prometia "sinergia", essa palavra mágica que executivos repetem em apresentações de PowerPoint quando querem justificar o injustificável, foi precificada como destruidora de valor para quem ficou de fora e libertadora de capital para os concorrentes. A subida das ações da PPG e da RPM significa que o mercado entendeu o seguinte: com a Akzo permanecendo independente, há menos pressão competitiva concentrada, mais espaço para os concorrentes operarem com margens saudáveis, e mais racionalidade na alocação de recursos no setor de tintas globais. Tudo isto sem que um único regulador antitruste tivesse que escrever um relatório de quinhentas páginas para chegar à mesma conclusão.

Me diz uma coisa, quanto custaria ao contribuinte europeu, ou americano, ou brasileiro, financiar uma análise burocrática equivalente sobre os impactos dessa fusão? Centenas de milhões em estudos, consultorias, audiências públicas, lobby disfarçado de "consulta à sociedade civil", e no final um parecer que sairia anos depois, com conclusões já obsoletas pela velocidade do mercado real. O preço das ações fez o mesmo trabalho de forma gratuita, instantânea, e infinitamente mais precisa. É a velha história: o conhecimento relevante para decisões econômicas está disperso entre milhões de cabeças, e nenhuma autoridade centralizada consegue reuni-lo a tempo de decidir nada com sensatez.

Repare também na lição sobre fusões e aquisições que o episódio entrega de graça. Existe uma mitologia corporativa, alimentada por bancos de investimento que ganham comissão polpuda em cada operação, segundo a qual "bigger is better", maior é sempre melhor, escala resolve tudo. A realidade é mais teimosa. A maioria das grandes fusões destrói valor para os acionistas porque pressupõe que executivos brilhantes vão integrar culturas corporativas distintas, sistemas incompatíveis, equipes desconfiadas, e ainda assim entregar os ganhos prometidos no slide três da apresentação. Não entregam. Quase nunca entregam. E quando o alvo da aquisição diz não, e o mercado celebra, está dizendo na linguagem dos preços aquilo que ninguém quer ouvir nas reuniões de board: você não é tão bom integrando empresas quanto pensa.

Há ainda o aspecto da soberania empresarial que merece atenção. A Akzo é holandesa, a oferta veio de fora, e a empresa exerceu seu direito mais básico, dizer não. Não houve necessidade de "campeões nacionais", de subsídios protecionistas, de BNDES correndo para empilhar bilhões em troca de "preservar o controle local". A empresa tinha valor suficiente para se defender sozinha, com seus números, sua estratégia, seus acionistas. Quando uma empresa precisa do Estado para se proteger de aquisição, geralmente é porque ela já está doente, e o Estado vai apenas prolongar o sofrimento gastando dinheiro de gente que nem sabe que está pagando essa conta.

O capitalismo de verdade é isto, transações voluntárias entre partes que podem dizer sim ou não, com o sistema de preços funcionando como árbitro silencioso de quem está certo. O outro modelo, o que prevalece em boa parte do mundo e particularmente em Brasília, é o do palpite ministerial, da intervenção bem-intencionada, do "ajuste fino" que sempre piora o quadro. Akzo disse não, PPG e RPM subiram, e a economia global avançou um centímetro porque uma decisão errada não foi forçada por ninguém. É pouco, mas é a forma como a riqueza se constrói: uma boa decisão de cada vez, sem o pai da nação atrapalhando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.