A Ralph Lauren fechou em US$ 389,38, recorde absoluto, e os analistas de terno italiano aparecem nos canais financeiros explicando que a marca "reposicionou o portfólio para o consumidor aspiracional premium". Traduzindo do economês para o português: subiram preço, cortaram desconto, e o americano da classe média que antes comprava polo na Macy's foi expulso da festa. Quem ficou paga mais caro e acha chique. Wall Street chama isso de pricing power. O resto do mundo chama de cliente cativo.

Olha, tem uma coisa engraçada acontecendo no mercado de ações americano que ninguém quer encarar de frente. Enquanto o varejo popular sangra, enquanto Target e Kohl's choram margem, as marcas de luxo disparam. Isso não é sinal de economia saudável, é sinal de economia bifurcada. A liquidez que o banco central despejou durante uma década não evaporou, apenas migrou. Ela foi para o topo da pirâmide, e agora volta em forma de bolsa de mão de cinco mil dólares, suíte em Aspen e, sim, camisa de tricô com cavalinho bordado a US$ 198.

Me diz uma coisa: você já parou para pensar quem realmente compra Ralph Lauren ao preço de tabela hoje? Não é o dentista do interior, não é o gerente de banco, não é o pequeno empresário. É o beneficiário da última rodada de impressão de dinheiro, o dono de ativos que foram inflados artificialmente por uma política monetária criminosamente frouxa. A ação sobe porque o comprador existe, e o comprador existe porque alguém, em algum lugar, recebeu dinheiro que não produziu. A festa do luxo é a ressaca do dinheiro barato, servida em taça de cristal.

E ainda tem o capítulo China, que a imprensa financeira adora esconder no rodapé. Ralph Lauren vem apostando pesado em expansão asiática, e cada vez que Pequim solta um estímulo, cada vez que o yuan cambaleia e o consumidor de Xangai corre para ativos de status ocidentais, a tesouraria em Nova York comemora. Dependência de um regime comunista para vender símbolo de capitalismo americano é o tipo de ironia que só o mercado financeiro consegue engolir sem rir. Até o dia em que Pequim decide que marca americana é problema geopolítico, e aí o cavalinho vira pangaré da noite para o dia.

Tem também o detalhe técnico que os entusiastas do papel omitem. Boa parte do rali recente não veio de venda de camisa, veio de recompra de ação. A empresa pega caixa, recompra papel próprio, reduz base de ações em circulação, e magicamente o lucro por ação cresce sem que uma única unidade a mais tenha sido vendida. É engenharia financeira, não criação de valor. É o mesmo truque que sustentou meio índice S&P 500 na última década, e que transformou executivos em bilionários enquanto o operário da fábrica na Carolina do Norte foi dispensado porque "a produção foi para o Vietnã por questões de eficiência".

No fim das contas, a máxima histórica da Ralph Lauren não é notícia de economia, é radiografia de uma sociedade que confundiu preço de ativo com prosperidade real. Quando o pônei galopa a quase quatrocentos dólares enquanto o salário mediano patina há vinte anos em termos reais, alguém está montando o cavalo errado. E quem paga a aveia, como sempre, é o contribuinte que nunca vai pisar numa loja da Madison Avenue.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.