A ação da RBC Bearings cravou US$ 603,75, máxima histórica, e o fato merece um momento de silêncio respeitoso antes do sarcasmo de praxe. Estamos falando de uma empresa que faz rolamentos, aquelas peças cilíndricas e sem glamour que seguram eixos girando em aviões, helicópteros, mísseis e máquinas pesadas. Nada de inteligência artificial salvadora, nada de aplicativo que entrega sushi em dezoito minutos, nada de promessa de revolucionar a experiência humana com um app de meditação guiada. Apenas metal usinado com precisão obsessiva, vendido a clientes que precisam que aquilo funcione ou o avião cai. E é exatamente esse tipo de negócio entediante que o mercado premia com recorde histórico enquanto startups de bilhões evaporam.

Há uma lição aqui que a turma do planejamento central finge não enxergar há um século. Ninguém em Washington decretou que os Estados Unidos precisavam de uma indústria líder mundial em rolamentos de precisão. Nenhum comitê interministerial criou um Plano Nacional de Rolamentos Estratégicos, nenhum burocrata desenhou em PowerPoint a cadeia produtiva ideal, nenhum BNDES americano distribuiu crédito subsidiado para campeões nacionais escolhidos na base do compadrio. A RBC cresceu ao longo de décadas servindo mercados exigentes, quebrando quando errava, lucrando quando acertava, e aprendendo com a diferença. É assim que capital se forma: sofrendo.

Compare isso com o modelo tropical. Aqui, quando o governo quer indústria, monta fundo. Monta fundo, captura o fundo, elege os beneficiários do fundo, e o fundo some. O dinheiro que saiu do bolso do contribuinte via imposto, via inflação, via dívida que os netos pagarão, vira jatinho executivo e palácio com lago artificial. O que se vê é a fábrica inaugurada com fita vermelha e deputado sorrindo. O que não se vê é a padaria que não abriu, o laboratório que não contratou pesquisador, a oficina mecânica que fechou porque o dono foi tributado até a morte para bancar o brinquedo industrial do amigo do ministro. Riqueza não apareceu, apenas mudou de mãos, e mãos erradas.

O recorde da RBC também é uma resposta àqueles que acreditam que produtividade nasce em seminário de inovação patrocinado por banco de fomento. Uma fábrica de rolamentos de alta precisão é a materialização do conhecimento disperso que nenhum planejador consegue centralizar. São milhares de engenheiros, operadores, fornecedores, compradores e clientes ajustando decisões em tempo real, com base em preços que ninguém decretou. O preço do aço, o preço da mão de obra, o preço da energia, o preço do dinheiro, tudo isso conversa entre si silenciosamente e produz coordenação que nenhum doutor em economia heterodoxa conseguiria escrever numa planilha. É ordem sem mandão. É cooperação sem comitê. É bonito quando se entende.

E tem ainda o detalhe geopolítico que a coluna não pode deixar passar. Rolamento aeroespacial de precisão é insumo militar. Quem domina essa cadeia domina, indiretamente, quem voa, quem atira e quem dissuade. Os Estados Unidos chegaram lá porque protegeram o direito de propriedade, respeitaram contratos, permitiram que empresários errassem sem ser crucificados e que acertassem sem ser expropriados. O Brasil, enquanto isso, discute se empresário é vilão ou se deveria ser apenas muito vilão. Depois estranhamos quando o submarino nuclear atrasa vinte anos e o caça nacional virou memorando.

Fica o contraste que incomoda quem precisa ser incomodado. Lá, uma empresa entediante de peças metálicas bate recorde na bolsa porque entrega o que promete há décadas. Aqui, campeões nacionais são aqueles cujo verdadeiro produto é a proximidade com o Planalto. Riqueza de verdade tem cheiro de óleo industrial e suor de operário qualificado, não perfume de gabinete climatizado. Enquanto não entendermos isso, continuaremos importando os rolamentos e exportando as desculpas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.