A Rogers Communications, gigante canadense de telecom, abriu o talão de cheques para convencer dez mil de seus funcionários a aceitarem o convite mais delicado que uma corporação consegue formular: por favor, vá embora por conta própria, antes que a gente tenha que mandar você embora. O mercado leu o comunicado e fez o que sempre faz quando uma empresa anuncia que vai deixar de queimar dinheiro com folha inflada: comprou a ação. As cotações subiram, analistas elogiaram a "disciplina de custos", e em algum lugar de Toronto um executivo de RH respirou aliviado por ter conseguido reduzir o passivo trabalhista sem precisar enfrentar a primeira página dos jornais com a palavra "layoff" em letras garrafais.

Olha, há uma lição econômica elementar aqui que setenta anos de propaganda sindical tentaram apagar, mas que o pregão teima em lembrar toda santa vez. Empresa não é instituição de caridade, e emprego não é direito adquirido por decreto. Emprego é a contrapartida de um valor produzido que excede o custo de mantê-lo. Quando esse cálculo se inverte, ou a empresa corta, ou a empresa quebra, e quando a empresa quebra os dez mil que ela demitiria voluntariamente viram cinquenta mil demitidos compulsoriamente. O acionista que comemorou a alta não é vilão de novela mexicana; é o sujeito que percebeu, antes do sindicalista de carteirinha, que uma estrutura mais leve aumenta a probabilidade de a empresa existir daqui a cinco anos.

Quer dizer, repare na coreografia. A Rogers não está fechando fábrica, não está fugindo do país, não está pedindo socorro estatal. Está fazendo aquilo que toda empresa privada faz quando opera num ambiente competitivo de verdade: ajustando o tamanho ao tamanho da receita. O detalhe é que ela está pagando para o funcionário sair, em vez de simplesmente colocá-lo na rua. Esse pacote voluntário custa caro, e o fato de o mercado ter precificado positivamente mesmo assim significa que a gordura era tão grande que vale a pena pagar para tirá-la. Traduzindo: havia ali dez mil postos cuja produtividade marginal estava abaixo do salário pago. Em economês de boteco, dez mil pessoas recebendo para fazer menos do que custavam.

E aqui entra o ponto que jornalista de caderno de economia raramente tem coragem de escrever, porque dá processo trabalhista até em quem só comentou no LinkedIn. Quando uma empresa precisa demitir dez mil para sobreviver, alguém empilhou esses dez mil ali em algum momento. Não foi o vento. Foi gestão anterior, foi expansão eufórica em ciclo de juros baixos, foi fusão mal digerida, foi a tentação universal de crescer organograma porque parece bonito no relatório anual. Quando o juro subiu e o crédito apertou, a fatura chegou. É o ciclo de sempre: dinheiro fácil infla a estrutura, dinheiro caro obriga a degola. O sindicato chama isso de crueldade do capital. O contador chama de aritmética.

O que não se vê nessa história é o lado mais interessante. Cada um daqueles dez mil que aceitar o pacote vai sair com dinheiro no bolso e disponibilidade para entrar em outra função, talvez numa empresa menor, mais ágil, que está crescendo justamente porque a Rogers e suas iguais ficaram lentas demais. O capital liberado pela folha enxugada vai financiar investimento, dividendo, recompra, ou alguma aquisição que cria empregos novos em outro lugar do tabuleiro. A foto do dia mostra dez mil saindo. O filme dos próximos anos mostra a economia se rearranjando ao redor desse rearranjo, e quase ninguém vai conectar os pontos. É sempre assim. O custo é concentrado e visível, o benefício é difuso e silencioso, e por isso o populista sempre ganha o microfone enquanto o liberal precisa de quatro parágrafos para explicar o óbvio.

Sobra a pergunta moral, que aliás é a única que interessa de verdade. É melhor para uma sociedade que empresas quebrem inteiras, levando consigo todos os empregos, todos os fornecedores e todos os investimentos, ou é melhor que elas se ajustem antes, com pacote de saída, mantendo viável o que sobra? Quem responde a primeira opção, em nome da "estabilidade do trabalhador", está dizendo, sem perceber, que prefere o cadáver inteiro ao paciente em recuperação. É o tipo de compaixão que mata. A Rogers escolheu viver, o mercado aplaudiu, e os dez mil que saírem com cheque na mão vão ter, daqui a um ano, uma vida melhor do que teriam se a empresa tivesse insistido em fingir que estava tudo bem até o boleto vencer de vez.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.