Mais uma semana, mais um ranking de altas e baixas publicado com aquela seriedade litúrgica de quem acredita que o mercado acionário brasileiro ainda responde a fundamentos. Responde a quê, exatamente? Olha, quem operou bolsa no Brasil nos últimos meses sabe que estudar balanço de empresa é quase hobby de colecionador, porque o que move o preço de verdade é o tuíte do ministro, a fala do presidente do Banco Central e a próxima medida provisória que ninguém leu mas todo mundo precifica. A semana do Investing.com é, no fundo, a semana do humor fiscal de Brasília travestida de análise técnica.
Quer dizer, repare no enredo. Sobe quem se beneficia de juro alto, desce quem depende de consumo, oscila quem exporta conforme o câmbio do dia, e o investidor pessoa física, aquele coitado que foi convencido em 2020 que renda variável era democratização da riqueza, agora descobre que estava na verdade comprando bilhete de uma rifa cujo sorteador mora no Centro Administrativo. Cada ponto percentual do Ibovespa carrega dentro de si uma aposta política, uma expectativa de gastança contida ou liberada, um cálculo sobre quanto tempo a impressora vai aguentar antes de cuspir mais papel sem lastro.
E quando se segue o dinheiro, o quadro fica ainda mais desconfortável. Os papéis que mais sobem na semana costumam ser os mesmos que recebem afago indireto do Estado, seja por subsídio disfarçado de política industrial, seja por benefício tributário travestido de incentivo setorial, seja por contrato público garantido com dinheiro do contribuinte que não sabe que está financiando a margem de lucro de alguém. O que se vê é a alta da ação. O que não se vê é o açougueiro de Pirassununga pagando imposto para que o acionista institucional embolse dividendo. A bolsa virou redistribuição de baixo para cima, e ninguém ousa chamar pelo nome.
Há também o capítulo das quedas, que é quase mais didático que o das altas. Empresa que perde valor numa semana específica raramente perdeu por má gestão repentina; perdeu porque algum burocrata, num gabinete climatizado, decidiu que aquele setor precisava de uma regulação nova, ou que aquele preço estava alto demais, ou que aquela margem ofendia algum princípio abstrato de justiça social. A canetada vale mais que o balanço, a portaria pesa mais que o lucro, e o pequeno investidor que tinha posição comprada descobre, no sangue, que vive num país onde direito de propriedade é figura de retórica constitucional.
O detalhe mais cruel é que tudo isso é apresentado como normalidade. Os comentaristas falam de volatilidade como se fosse fenômeno meteorológico, algo que cai do céu, quando na verdade é produto direto de um Estado que não consegue parar de meter a mão onde não foi chamado. Mercado livre tem volatilidade própria, claro, mas a volatilidade brasileira é fabricada em série, com selo do Tesouro e carimbo do Congresso. Cada semana de pregão é uma semana em que o capital privado tenta adivinhar quanto do próprio bolso o governo vai querer levar na próxima rodada.
No fim das contas, o ranking semanal de ações mais negociadas é menos um termômetro econômico e mais um sismógrafo político. Quem entende isso opera com vantagem. Quem não entende continua achando que está investindo em empresa, quando na verdade está apostando em qual ala do governo vai vencer a próxima briga interna. E enquanto durar essa farsa, a única ação que sobe sempre, sem volatilidade nenhuma, é a do tamanho do Estado brasileiro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.