A festa começou com vinte por cento de alta em um único pregão, e ninguém parou para perguntar o motivo prosaico de tanta euforia. O conglomerado japonês acumulou posições gigantescas em uma empresa que ainda queima dinheiro como lenha em fogueira de São João, a OpenAI, e prepara o IPO de uma subsidiária de energia que promete cavalgar a onda da inteligência artificial. O mercado então decidiu, num passe de mágica coletiva, que tudo isso já vale uma fortuna. Não vale. Vale a promessa de que talvez venha a valer. Existe uma diferença crucial entre essas duas coisas, e ela costuma aparecer com clareza apenas depois que a poeira assenta sobre os investidores tardios.
Vale a pena olhar para o que não se vê na manchete. Por trás do salto está uma engenharia financeira que se repete com pontualidade litúrgica a cada ciclo de exuberância tecnológica. Compra-se participação numa promessa, marca-se essa participação a mercado pelo valor inflado da próxima rodada, contabiliza-se o ganho no papel como se fosse riqueza real, e usa-se esse ganho para justificar novas alavancagens. É o mesmo truque dos anos noventa, dos derivativos imobiliários americanos, das criptomoedas em ciclos sucessivos. Muda o vestido, não muda a noiva.
Siga o dinheiro e o enredo se ilumina. Quem ganha primeiro com esse tipo de euforia são os bancos de investimento que estruturam o IPO, os fundadores que liquidam posições secundárias, os executivos que vestem suas opções, e os primeiros institucionais que entraram quando ainda existia desconto. Quem paga, sempre, é o investidor de varejo que chega ao final da fila convencido de que está participando do futuro. Esse investidor está, na verdade, comprando o passado caro dos outros. O futuro, quando chega, costuma ser bem menos generoso do que o folheto prometia.
Há ainda o detalhe inconveniente de que a OpenAI segue sendo uma operação deficitária descomunal, sustentada por aportes recorrentes de gente que precisa que ela continue parecendo a próxima coisa grande. A subsidiária de energia surfa o argumento, hoje universal, de que a inteligência artificial consumirá tanta eletricidade que qualquer empresa do setor automaticamente vale o dobro. Talvez consuma mesmo. Talvez não consuma tanto. O mercado, no entanto, não está esperando descobrir, está apenas pagando adiantado pela hipótese mais otimista possível. Esse é o sintoma clássico de quando o preço deixou de ter relação com o lucro e passou a ter relação com a fé.
O leitor atento já percebeu o padrão. Toda vez que um banco central manteve dinheiro barato por tempo demais, esse dinheiro foi parar em algum canto excêntrico do mercado e produziu uma celebração proporcional ao excesso de liquidez. A festa nunca termina pela maturidade dos participantes. Termina quando o crédito aperta, quando uma rodada de captação fracassa, quando o primeiro grande vendedor sai pela porta e os demais descobrem que a porta é estreita. Aí o conglomerado que subiu vinte por cento numa sessão devolve trinta na seguinte, e os jornais escrevem reportagens espantadas sobre como ninguém poderia ter previsto.
Previsível, todavia, é justamente o que isso é. Quando o entusiasmo precede o resultado, quando a expectativa vira ativo contábil, quando a ação dispara não porque a empresa lucrou mas porque alguém comprou a ideia de que ela vai lucrar, o nome técnico disso é bolha, e o nome popular é armadilha. O resto é apenas a velha questão de saber quem ficará sem cadeira quando a música parar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.