O setor farmacêutico tem uma liturgia própria, e quem já assistiu a esse rito algumas vezes reconhece cada passo sem precisar ler o programa. A Spyre Therapeutics executou a cerimônia com uma pontualidade que merece registro: divulgou na manhã de segunda-feira os dados da Fase 2 do seu ensaio SKYLINE, mostrando que o SPY001, anticorpo experimental para colite ulcerativa moderada a grave, atingiu o desfecho primário com redução estatisticamente significativa no índice histopatológico, remissão clínica em 40% dos pacientes e melhora endoscópica em 51%. As ações da SYRE dispararam mais de 25%. E então, ainda antes de a poeira baixar, a empresa anunciou uma oferta pública de US$ 300 milhões em ações ordinárias, com opção adicional de US$ 45 milhões para os coordenadores. Jefferies, Goldman Sachs, Evercore e Guggenheim estão tocando a orquestra. O investidor de varejo que comprou na euforia está pagando o ingresso.

Não existe conspiração nisso. É algo mais simples e mais honesto do que conspiração: é o mercado funcionando exatamente como os incentivos permitem. Uma empresa de biotech sem produto comercializado precisa de caixa para financiar as próximas fases de teste, e a melhor hora para levantar esse caixa é quando o mercado está animado. A boa notícia clínica é, entre outras coisas, uma janela de financiamento. O dado promissor da segunda-feira valeu US$ 300 milhões de captação na noite da segunda-feira. A lógica é impecável. O que incomoda não é a lógica, é a sequência, porque ela revela algo sobre quem beneficia quem e em que ordem.

Quer dizer, os coordenadores da oferta recebem os honorários independentemente de o medicamento chegar ao mercado algum dia. A empresa levanta o capital que precisa para continuar operando. Os executivos que tinham opções de ações aproveitaram a valorização de 25% para o que acharam conveniente. E o investidor pessoa física que leu a manchete "resultados promissores em ensaio de Fase 2" e comprou às 11 da manhã está segurando, no dia seguinte, uma posição diluída por centenas de milhões de dólares em novas ações emitidas. O que se via era a cura potencial de uma doença que afeta milhões de pessoas. O que não se via era a impressora de ações já ligada na sala ao lado.

Vale entender o que "Fase 2" significa antes de qualquer entusiasmo excessivo. O desenvolvimento farmacêutico percorre Fases 1, 2, 3 e aprovação regulatória. A taxa de sucesso de um medicamento que entra em Fase 2 e chega ao mercado é, historicamente, em torno de 30%. Um em três. Os dados do SKYLINE são genuinamente encorajadores para quem acompanha a ciência, mas o caminho entre "resultado promissor de indução em 12 semanas com 40 pacientes" e "medicamento aprovado e rentável" é longo, caro e cheio de armadilhas. O mercado, em sua sabedoria coletiva, precificou a notícia com alta de 25% e depois, confrontado com a diluição, recuou em after-hours. O mercado lembrou o que a manchete fazia questão de não enfatizar.

Olha, isso não é argumento contra o desenvolvimento de novos medicamentos. A colite ulcerativa é uma doença debilitante que destrói a qualidade de vida de quem sofre, e se o SPY001 chegar ao mercado e funcionar, será um bem genuíno para a humanidade. O ponto não é a ciência. O ponto é que o varejo costuma ser a última camada de financiamento de uma estrutura que distribui o risco para baixo e o retorno para cima. Quem entrou cedo, quem financiou as fases iniciais com capital de risco, quem negociou as condições da oferta, quem vai cobrar os fees de coordenação, todos esses atores já têm seu pedaço garantido antes que a notícia chegue ao feed do investidor entusiasmado. O entusiasta chega ao banquete quando os pratos principais já foram servidos e sobrou o pão.

O resultado final pode ser magnífico ou pode ser mais um medicamento que não sobrevive à Fase 3. Enquanto isso, US$ 300 milhões foram transferidos dos bolsos de novos acionistas para o caixa da empresa, os bancos de investimento embolsaram suas comissões e os dados de 12 semanas continuarão sendo citados em apresentações para investidores como prova de que a história está se desenvolvendo conforme o planejado. Que esteja mesmo. Mas saber como a peça é encenada não tira o direito de apreciar a performance. Tira apenas a ingenuidade de confundir palco com realidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.