As ações da Super Micro Computer dispararam depois que Taiwan colocou a chinesa SMIC e dezenas de empresas ligadas a Pequim na lista de controle estratégico de exportações, bloqueando o acesso delas a chips, equipamentos e componentes fabricados na ilha. A leitura do pregão foi imediata, quase pavloviana, se um competidor perde fornecedor, o outro ganha mercado. E como praticamente toda a cadeia global de semicondutores avançados passa por Taiwan, a canetada de Taipé vale mais que qualquer trimestre de resultado operacional. O preço do papel não subiu porque a Super Micro ficou mais produtiva da noite para o dia, subiu porque um governo, do outro lado do mundo, decidiu quem pode e quem não pode comprar.

Aí está a fotografia mais honesta do capitalismo do nosso tempo, ou melhor, do que sobrou dele. Não é a engenhosidade do empreendedor que move a cotação, é a assinatura do burocrata. O valor de uma empresa de tecnologia de ponta hoje depende menos do engenheiro no laboratório e mais do funcionário do ministério que carimba a licença de exportação. Você pode ter o melhor produto, o preço mais competitivo, a melhor equipe, e ainda assim seu destino será decidido numa sala fechada em Taipé, Washington ou Pequim, por gente que nunca soldou um transistor na vida.

O que se vê é a alta da Super Micro, o aplauso dos analistas, a manchete redonda. O que não se vê é a fila de empresas chinesas que de uma hora para outra ficaram sem insumo, os contratos rompidos, os engenheiros demitidos, os consumidores do mundo inteiro que vão pagar mais caro pelo servidor porque a oferta global encolheu na canetada. Toda restrição comercial é apresentada como vitória estratégica, e quase sempre é uma transferência forçada de riqueza disfarçada de soberania nacional. Alguém ganha, sempre, e geralmente é quem tem lobista melhor instalado nos corredores certos.

Vale seguir o dinheiro com calma. Quem ganha com o cerco a SMIC? Os fabricantes americanos de servidores de inteligência artificial, claro, e por trás deles os fundos que já estavam posicionados meses antes da decisão sair. Quem ganha politicamente? O governo de Taiwan, que reforça o alinhamento com Washington e compra proteção militar implícita. Quem perde? O consumidor final de tecnologia, que vai pagar a conta da fragmentação da cadeia global, e os trabalhadores das duas pontas, que viram peão num jogo de xadrez geopolítico travestido de política industrial. O livre comércio, aquele bicho que enriqueceu o mundo no último século, virou palavrão nas chancelarias.

Tem ainda o detalhe que ninguém comenta em voz alta. Cada bloqueio de exportação é também um convite à autarquia, e autarquia em tecnologia significa duplicação de fábricas, desperdício de capital, redução de qualidade e atraso inovativo. A China vai responder construindo o que faltou, com subsídio estatal, distorcendo ainda mais o mercado interno. Os Estados Unidos vão responder com mais subsídio doméstico, distorcendo o seu. E nós, espectadores, vamos celebrar a alta de uma ação na bolsa como se fosse vitória da livre iniciativa, quando é apenas o resultado de um decreto bem cronometrado. O mercado livre morreu há tempos, sobrou o mercado autorizado.

Quem comemora a valorização da Super Micro está comemorando, sem perceber, a vitória do gabinete sobre a fábrica. E gabinete que vence fábrica uma vez, vence para sempre, até que a fábrica feche.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.