O lucro veio modesto, quase envergonhado, e ainda assim o papel da Tokyo Electron decolou na bolsa de Tóquio. A explicação cabe em uma palavra que virou religião nos pregões do mundo inteiro, projeção. A empresa olhou para o balanço pálido, sorriu de canto e disse aos investidores que o futuro será radiante, recheado de pedidos de chips para essa coisa chamada inteligência artificial que serve hoje para justificar qualquer múltiplo, qualquer prêmio, qualquer fé. E o mercado, dócil, aplaudiu de pé.
Quer dizer, é curioso observar como o capitalismo financeiro contemporâneo aprendeu a precificar promessa com mais entusiasmo do que precifica entrega. O resultado trimestral, aquele número auditado, frio, verificável, virou nota de rodapé. O que move bilhões de ienes em segundos é o guidance, a previsão, a narrativa cuidadosamente costurada pela diretoria. É como se o investidor médio tivesse desistido de analisar o presente e passasse o dia inteiro torcendo para que o futuro prometido se cumpra, porque sem ele a conta simplesmente não fecha.
Há uma razão técnica para isso, e ela não é elogiosa. Quando os bancos centrais do mundo passaram quinze anos jogando dinheiro barato no sistema, treinaram uma geração inteira de gestores a procurar crescimento futuro em vez de valor presente. O lucro de hoje virou plebeu, a expectativa virou nobreza. A taxa de juros artificialmente espremida durante uma década inteira fabricou esse universo paralelo onde uma empresa pode reportar resultado mediano e ver o papel disparar dois dígitos porque escreveu uma carta bonita aos acionistas.
Olha, no caso específico da Tokyo Electron, há substância na tese, ninguém aqui está dizendo o contrário. A empresa fabrica equipamentos sofisticadíssimos para a produção de semicondutores avançados, e a corrida geopolítica entre Estados Unidos, China, Coreia e Taiwan transformou esse setor numa espécie de petróleo do século vinte e um. O que se discute não é a relevância da companhia, é a desconexão entre o que ela acabou de mostrar e o que o preço já presume. O mercado precificou a profecia inteira, sem desconto para o risco de ela não se realizar.
E o risco existe, ainda que ninguém queira mencioná-lo na coletiva. Subsídios bilionários do Japão, dos Estados Unidos e da Europa para reindustrializar a fabricação de chips são, no fundo, dinheiro do contribuinte transferido para acionistas privados sob o pretexto de segurança nacional. Funciona enquanto o cofre público aguenta. Quando a fatura chegar, em forma de inflação, dívida ou imposto novo, ninguém vai associar a conta ao boom dos semicondutores que aplaudimos hoje. O que se vê é o lucro da Tokyo Electron, o que não se vê é o brasileiro, o americano, o japonês comum pagando a festa em parcelas mensais.
Há ainda o aspecto que poucos analistas têm coragem de tocar, a fragilidade da própria narrativa de inteligência artificial. Cada empresa cotada acima de cem bilhões de dólares está apostando que a demanda por capacidade computacional vai crescer indefinidamente, em linha reta, sem ciclo, sem saturação, sem decepção. A história econômica nunca, jamais, em hipótese alguma, validou esse tipo de extrapolação. Toda corrida do ouro tem seus garimpeiros tardios que chegam quando o filão já secou. Tokyo Electron pode estar vendendo as picaretas, e isso é confortável, mas até o vendedor de picaretas depende de garimpeiros vivos.
O recado, no fim do dia, é simples e desconfortável. Quando o preço sobe com lucro modesto e projeção generosa, não estamos vendo eficiência de mercado, estamos vendo apetite por narrativa num ambiente onde o juro real distorceu o juízo de valor. Um dia a conta chega, e ela não chega como manchete econômica, chega como inflação na sua padaria.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.