Começa pelo fato, que é prosaico e por isso mesmo revelador. A Vishay Precision Group, empresa que a esmagadora maioria dos comentaristas econômicos jamais ouviu falar, publicou resultados melhores do que o consenso esperava e foi recompensada com uma valorização de 5% num único pregão. Não houve injeção de liquidez, não houve programa de estímulo, não houve reunião em Brasília ou em Washington decidindo o destino dos sensores de precisão. Houve, simplesmente, uma empresa que produz coisas reais para clientes reais entregando números reais. E o mercado, esse organismo que ninguém comanda mas todo mundo tenta domar, reagiu como sempre reage quando o capital encontra seu lugar legítimo: subindo o preço de quem acerta e descontando o preço de quem erra.

Olha, é curioso como essas notícias passam quase despercebidas no noticiário econômico brasileiro, sempre obcecado com a próxima decisão do Copom, com a fala do ministro da Fazenda, com a profecia do economista-chefe deste ou daquele banco. Como se a economia fosse uma sala de reuniões com ar condicionado, e não a soma de milhões de decisões descentralizadas que ninguém em particular consegue antecipar. A Vishay produz sensores de força, transdutores, instrumentos de medição industrial, coisas que quem nunca pisou numa linha de produção acha que aparecem por geração espontânea. Cada componente desses representa décadas de conhecimento técnico acumulado, capital pacientemente investido, engenheiros formados, fornecedores selecionados, mercados conquistados centímetro por centímetro.

Quer dizer, ninguém em comitê algum poderia ter desenhado essa cadeia produtiva. Nenhum planejador, por mais doutorado que tivesse, conseguiria reproduzir num escritório o que o mercado faz silenciosamente todos os dias: agregar bilhões de pedaços de informação dispersa em sinais de preço que dizem aos produtores o que fazer e aos investidores onde alocar o capital. Quando os resultados de uma empresa como essa surpreendem positivamente, o que está acontecendo é um pequeno milagre cotidiano de coordenação, daqueles que os apóstolos do planejamento estatal jamais reconhecem porque acontecem sem precisar deles, sem pedir licença, sem aguardar despacho ministerial.

Me diz uma coisa, quantos sensores de precisão o governo americano produziu nos últimos cinquenta anos? Quantos transdutores saíram de algum programa federal de fomento industrial sem antes ter sido capturado por algum lobista bem posicionado? A resposta é óbvia, e por isso mesmo é desconfortável para os que acreditam que prosperidade vem de gastança pública. A Vishay sobe porque vendeu mais, vendeu melhor, ou conteve custos com eficiência. Não sobe porque ganhou um subsídio, porque foi protegida da concorrência, ou porque o Tesouro decidiu socializar o prejuízo dos seus erros. Esse tipo de valorização é honesto, e por ser honesta é desinteressante para quem só sabe analisar a economia através das lentes embaçadas da política monetária.

O contraste com o que se vê no Brasil é gritante e merece ser dito sem floreios. Aqui, as ações que sobem com mais frequência são as das empresas que conseguiram extrair alguma vantagem regulatória, algum financiamento subsidiado, alguma concessão de monopólio legal. Lá, ainda existem nichos onde o sucesso depende de fazer algo melhor do que o concorrente faria. A diferença não é cultural, não é genética, não é nada disso que os sociólogos de plantão querem vender. É institucional. É a diferença entre um ambiente onde o capital flui para quem produz e um ambiente onde o capital flui para quem tem o telefone certo do gabinete certo.

O que se vê é uma alta de 5%. O que não se vê é o exército silencioso de decisões certas que ela representa, e o exército igualmente silencioso das decisões erradas que outras empresas tomaram e foram penalizadas por elas. Esse mecanismo, o de premiar acerto e punir erro com a rapidez impiedosa do preço, é a coisa mais civilizadora que a humanidade já produziu fora do casamento e da propriedade privada. Quem quer abolir isso em nome de qualquer ideal nobre está, no fundo, querendo abolir a única vacina que temos contra a estupidez econômica organizada. A Vishay subiu 5%. Em algum lugar, um burocrata acha que mereceria crédito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.