A Warby Parker anunciou óculos com inteligência artificial e o mercado, em vez de aplaudir, vendeu as ações. Pasme quem achava que o feitiço durava para sempre. Faz alguns anos que basta uma empresa, qualquer empresa, soltar a sigla sagrada num release para que o papel suba dois dígitos no pregão seguinte. Padaria que coloca chatbot no caixa virava unicórnio. Fabricante de armação de óculos não escapou da tentação, montou seu próprio numerinho com a sigla, e desta vez levou um tapa na cara da realidade.
A pergunta que ninguém faz nos canais de televisão financeira é simples: o que exatamente esses óculos fazem que justifique o investimento, a margem, o preço final ao consumidor e, principalmente, a expectativa de retorno embutida no múltiplo da ação? Quando você raspa o verniz do marketing, sobra um aparelho que provavelmente faz coisas que o consumidor não pediu, não precisa e não vai pagar a mais para ter. A bolsa, que de tola não tem nada quando o assunto é o próprio bolso dos gestores, percebeu o truque mais rápido do que o departamento de comunicação da empresa esperava.
O fenômeno é maior que a Warby Parker. Estamos diante de uma das maiores expansões artificiais de capital da história recente, com trilhões de dólares perseguindo qualquer coisa que tenha duas letrinhas no logo. Capital barato fabricado em série pelos bancos centrais foi parar onde sempre vai parar quando o dinheiro fica gratuito: em apostas cada vez mais malucas, em projetos cada vez mais duvidosos, em valuations cada vez mais desconectados de qualquer noção de geração real de caixa. O que se vê é a euforia. O que não se vê é o capital sendo desviado de usos produtivos para alimentar uma fogueira de promessas.
O detalhe delicioso é que a tecnologia em si até funciona em vários setores, gera produtividade real, tem aplicações sérias. Mas o mercado de capitais não distingue, no curto prazo, o que cria valor do que apenas usa a marca. Toda empresa quer parecer estar na onda, toda diretoria quer justificar bônus, toda consultoria vende a transformação. O resultado é exatamente o que se viu nas pontocom no fim dos anos noventa, quando colocar dotcom no nome dobrava o preço da ação de uma empresa de ração para gato. Aquilo terminou bem? Pergunte aos que ficaram segurando os papéis.
A queda da ação da fabricante de óculos é, na verdade, uma boa notícia para quem ainda acredita que preço serve para informar e não apenas para narrar. O sistema de preços, quando deixado em paz, faz o trabalho sujo que ministros, reguladores e influenciadores financeiros nunca farão: separa o joio do trigo, pune a euforia, recompensa a entrega concreta. Quando investidor começa a vender no anúncio em vez de comprar, a racionalidade está voltando ao recinto, ainda que devagar e a duras penas. O mercado livre não é infalível, mas é o único mecanismo conhecido que cobra a conta de quem mente com gráfico bonito.
Resta saber quanto tempo até que essa lição chegue aos gigantes que sustentam metade do índice americano com a mesma promessa requentada. Quando a maré baixar, e ela sempre baixa, vamos descobrir quem estava nadando pelado. Por enquanto, fique com esta certeza: toda vez que um produto precisa de uma sigla da moda para parecer relevante, é porque sozinho não se sustenta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.