A Wolfspeed bateu máxima de 52 semanas a US$ 36,60 e os gestores de fundo abriram champanhe como se tivessem descoberto petróleo no quintal. Olha, antes de aplaudir, convém olhar de onde sai o combustível desse foguete. A empresa fabrica chips de carbeto de silício, virou queridinha do programa de subsídios federais americanos para semicondutores, recebeu cheque bilionário do governo, sobreviveu a uma reestruturação que apagou bilhões em dívida, e agora vê o papel disparar enquanto o noticiário trata o salto como vitória do livre mercado. Quer dizer, livre mercado nenhum: isto aqui é capitalismo de compadrio em estado puro, com a diferença de que o compadre se chama Tesouro Nacional dos Estados Unidos.
Me diz uma coisa, quando uma ação some 95% do valor em dois anos, entra em recuperação, queima acionistas antigos num wipeout brutal e ressuscita das cinzas com selo de prioridade estratégica do governo, isto se chama recuperação ou se chama transferência de risco? O risco saiu do investidor que comprou a tese original, foi parar no contribuinte via subsídio direto, garantia de empréstimo, encomenda militar embutida e regime tributário desenhado sob medida. O acionista novo, esse que entra agora vendo o gráfico bonito, não está comprando produtividade industrial. Está comprando exposição alavancada à política industrial de Washington. É uma aposta no Estado, fantasiada de aposta na tecnologia.
O argumento oficial é o de sempre: precisamos de chips em casa, a China é uma ameaça, segurança nacional justifica tudo. Funciona como argumento até você lembrar que cada dólar carimbado para a Wolfspeed é um dólar tirado de quem nunca foi consultado, redirecionado de empreendimentos que jamais existirão porque o capital foi desviado para o vencedor escolhido pelo lobby mais bem pago. Os empregos criados na fábrica de Mohawk Valley são visíveis, fotogênicos, rendem coletiva com governador sorrindo. Os empregos não criados pelos pequenos e médios fornecedores que pagam a conta via imposto e inflação não rendem foto, não rendem manchete, não rendem nada, exceto silêncio.
Há uma lógica brutal por trás disso, e ela não é nova. Toda vez que um governo decide que sabe melhor que o mercado quem deve produzir o quê, o resultado é o mesmo: alguém fica rico no curto prazo, geralmente quem estava na sala quando a regra foi escrita, e a sociedade fica mais pobre no longo prazo, geralmente sem perceber. A história industrial do século XX está cheia desses cadáveres. Campeões nacionais subsidiados que viraram zumbis sustentados por décadas, fundos soberanos que torraram fortunas escolhendo perdedores com ar de vencedores, planos quinquenais que prometiam o futuro e entregaram filas. O figurino muda, o roteiro é idêntico.
O detalhe sórdido é que o sujeito que comprou Wolfspeed a US$ 36,60 talvez ganhe dinheiro mesmo, e isto é o que torna o esquema perverso. Não é fraude, é pior: é incentivo perfeitamente alinhado para que o capital privado abandone a busca por produtividade real e se especialize em farejar onde o Tesouro vai despejar dinheiro a seguir. Vira uma economia de cortesãos, cada gestor disputando proximidade com o burocrata certo, cada CEO contratando ex-funcionário do Departamento de Comércio, cada balanço dependendo menos do consumidor e mais do edital. Chama-se isto de inovação. O nome correto seria outro, mas o nome correto não cabe em prospecto.
No fim, a máxima de 52 semanas da Wolfspeed não é notícia de tecnologia, é notícia de política. O papel sobe porque o Estado decidiu que ele subiria, e o mercado, que aprendeu a ler placa em movimento, apenas obedece. Quando a fatura chegar, e ela sempre chega em forma de inflação, dívida pública insustentável ou crise fiscal, o gestor já terá realizado lucro e o contribuinte terá herdado o prejuízo. É o velho truque: privatizar o ganho, socializar a perda, e chamar o resultado de milagre industrial. Milagre é só o nome que damos ao que ainda não entendemos. Quando entendemos, costumamos chamar de roubo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.