A cena se repete com a pontualidade de um relógio suíço. Uma corretora de médio porte, a B.Riley, troca a recomendação da Zscaler de neutra para compra, mexe no preço-alvo, e em questão de horas os papéis disparam dez por cento. Nada de novo na operação da empresa, nenhum contrato bilionário anunciado, nenhuma virada tecnológica revelada. Apenas um relatório, uma planilha revisada, e o suficiente para movimentar centenas de milhões em valor de mercado num único pregão. Quem ainda acredita que o preço das ações reflete fundamentos da economia real precisa rever os conceitos.

O setor de cibersegurança, contudo, tem uma peculiaridade que os fundos de Wall Street entenderam antes da imprensa. Trata-se do raríssimo negócio em que o produto vendido se torna mais necessário a cada fracasso coletivo. Cada vazamento de dados, cada ransomware que paralisa hospital, cada invasão a banco estatal, tudo vira combustível para o próximo trimestre da Zscaler, da Palo Alto, da CrowdStrike. É o equivalente moderno da indústria farmacêutica que ganha quando a saúde pública piora, só que com margens melhores e menos regulação incômoda.

Siga o dinheiro e a trilha fica clara. Governos do mundo inteiro, em pânico permanente após cada incidente noticiado, despejam orçamentos crescentes em soluções de segurança digital. Empresas privadas, aterrorizadas pelas multas regulatórias que os mesmos governos criaram, contratam camadas e mais camadas de proteção que ninguém entende direito. O resultado é um ecossistema em que o medo virou modelo de negócios, e o medo, ao contrário do petróleo, é renovável. Quanto mais o Estado regula a privacidade digital, mais cresce o mercado de quem vende a obediência a essa regulação.

A Zscaler especificamente opera no chamado modelo zero trust, expressão que traduzida para o português significa basicamente desconfiar de todo mundo o tempo todo. Vendem isso como inovação, mas é apenas a velha sabedoria de que portas trancadas valem mais que promessas de boa-fé, agora embrulhada em sigla americana e cobrada por assinatura mensal. O capitalismo é assim mesmo: pega uma verdade óbvia que sua avó já sabia, transforma em software como serviço, e cobra cinquenta dólares por usuário por mês. E o mercado paga, porque a alternativa é virar manchete na próxima invasão.

O detalhe revelador é o tamanho da reação ao upgrade. Dez por cento numa sessão por causa de um único analista de uma casa que não está entre as principais de Wall Street. Isso diz menos sobre a Zscaler e mais sobre o estado da especulação contemporânea, em que algoritmos de alta frequência caçam qualquer movimentação de recomendação para extrair pontos básicos de ineficiência. A bolsa virou cassino sofisticado onde os fundamentos chegam depois, quando chegam. Lembre-se disso na próxima vez que algum gestor lhe explicar que o mercado precifica racionalmente as expectativas futuras.

No final das contas, o investidor atento aprende uma lição que serve para muito além de cibersegurança. Quando um governo, um regulador ou uma manchete cria pânico generalizado sobre qualquer risco, sempre haverá uma indústria pronta para vender a tranquilidade de volta, em prestações suaves e com margem operacional invejável. A Zscaler sobe hoje porque alguém em Wall Street percebeu que o caos digital chegou para ficar. E onde tem caos permanente, tem lucro permanente. Os mercados são honestos numa coisa apenas: sabem para onde o vento sopra antes mesmo de soprar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.