Fecharam no vermelho as bolsas de Xangai, Shenzhen e Hong Kong, com indicadores de atividade industrial frustrando até as expectativas já rebaixadas dos analistas, somados ao risco geopolítico que voltou a precificar barril, frete marítimo e prêmio de seguro como se o calendário tivesse retrocedido cinquenta anos. O mercado, esse mecanismo que os burocratas adoram chamar de irracional quando não obedece, simplesmente leu o balanço da realidade e tirou ficha da mesa. Quem investe dinheiro de verdade, não slogan de congresso partidário, não compra promessa, compra fluxo de caixa futuro descontado pela probabilidade de o governo não meter a mão.

Olha, é curioso o teatro. Há mais de uma década Pequim anuncia, com aquela pompa de quem acabou de inventar o pão, planos quinquenais de transição para consumo interno, economia de alta tecnologia, dual circulation, common prosperity e todo o vocabulário que se fabrica em comitê para disfarçar que ninguém ali sabe o que vai funcionar amanhã. O problema é antigo e elementar. Nenhum politburo, por mais doutorado que tenha, consegue substituir o sistema de preços livres na tarefa de descobrir onde alocar capital. O conhecimento relevante está pulverizado em centenas de milhões de cabeças, e nenhum supercomputador agrega isso melhor do que um pregão honesto.

Some-se a isso o que se passa no Oriente Médio, e o quadro fica didático. Guerra encarece energia, encarece logística, encarece risco. Encarecer risco significa, em bom português, que o investidor exige prêmio maior para deixar capital exposto, e capital que exige mais retorno em ativo arriscado é capital que sai correndo de mercado opaco para mercado previsível. Pequim, que passou os últimos anos prendendo executivo de tecnologia, sumindo com banqueiro estrangeiro e reescrevendo regra de jogo a cada trimestre, descobre agora que opacidade tem preço, e o preço veio cobrado em forma de saída líquida de portfólio. Não foi a Bloomberg que decretou. Foi o que se vê no painel, e mais importante, o que não se vê: as decisões silenciosas de não aportar, de não expandir fábrica, de não renovar mandato de gestão.

O detalhe delicioso é o seguinte. Toda vez que esses dados saem, a resposta de Pequim é injetar liquidez, comprar tempo, abaixar compulsório, mandar banco estatal sustentar índice. Quer dizer, a cura proposta para a ressaca é mais um copo da cachaça que provocou a ressaca. Crédito barato e dirigido foi exatamente o combustível das bolhas imobiliárias que afundaram Evergrande, Country Garden e meia dúzia de outros gigantes que hoje servem de monumento ao que acontece quando se confunde decreto com criação de riqueza. Toda expansão artificial de crédito termina em ajuste doloroso, e quem paga não é o burocrata que assinou a portaria, é a poupança do velhinho que confiou no fundo de previdência.

Existe ainda a camada cultural, que ninguém quer discutir porque dá trabalho. Uma sociedade onde o sujeito não sabe se o contrato que assinou ontem vale amanhã, onde a propriedade depende do humor do partido, onde o sucesso pessoal pode ser punido em nome da harmonia social, não produz capital paciente. Produz fuga. Os hong-konguenses que tinham passaporte britânico já entenderam isso, os taiwaneses entenderam há décadas, e os próprios magnatas chineses estão estacionando patrimônio em Singapura, Dubai e Suíça enquanto sorriem nas fotos oficiais. Sem segurança de propriedade, não há horizonte longo. Sem horizonte longo, não há civilização produtiva. É lei tão antiga quanto enterrar os mortos.

Me diz uma coisa: se o modelo funcionasse mesmo, precisaria de censura, muralha digital, prisão de economista que publica número verdadeiro e bolsa segurada a fórceps por banco estatal? A bolsa caindo é sintoma, não doença. A doença é achar que vontade política revoga escassez, que comitê substitui mercado e que comunicado oficial vale mais que balanço auditado. Há quem chame isso de modelo alternativo de capitalismo. O nome correto é mais curto, mais antigo e bem menos elegante: é a velha pretensão de mandar na realidade, e a realidade, paciente como sempre, está mandando a conta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.