Bastou o anúncio de que Freddie Mac e Fannie Mae passarão a aceitar o VantageScore 4.0 na originação de hipotecas para que as ações das empresas de classificação de crédito despencassem em Nova York. Não caíram por acaso, não caíram por pânico irracional, caíram porque o mercado entendeu, em questão de minutos, o que os reguladores levaram décadas fingindo não enxergar: aquilo que se chamava de "padrão da indústria" nunca foi padrão coisa nenhuma, era privilégio legal costurado em gabinete, com carimbo de agência federal e contracheque bancado pelo contribuinte americano que nunca foi consultado sobre absolutamente nada.

Pare um instante e observe o arranjo. Duas entidades patrocinadas pelo governo, criaturas híbridas que privatizam lucro e socializam prejuízo desde que o mundo é mundo, compram praticamente todas as hipotecas residenciais dos Estados Unidos. E exigiam, por décadas, que o score usado na análise fosse de um único fornecedor. Um. Num país que se vende como berço da livre concorrência. O resultado previsível: margens operacionais de fazer inveja a cartel de petróleo, ação subindo em linha reta enquanto o cidadão comum pagava juros ligeiramente mais caros em cada refinanciamento, e ninguém reclamando porque ninguém via. É o velho truque, o custo é diluído em milhões de mutuários distraídos e o benefício é concentrado num punhado de acionistas muito bem informados.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Lobby em Washington, consultorias bem pagas, ex-reguladores circulando pela porta giratória entre agência federal e conselho de administração, relatórios técnicos patrocinados explicando por que mudar seria "arriscado para o sistema financeiro". Arriscado para quem, exatamente? Para o mutuário que pagaria menos se houvesse competição? Para o banco que teria duas metodologias para comparar? Ou para o incumbente que construiu um fosso regulatório onde deveria haver um rio corrente de concorrentes disputando clientes? A resposta está escrita no gráfico intradiário daquele pregão, e ela é tão eloquente que dispensa tradução.

Há uma lição aqui que transcende o caso específico e vale para toda conversa séria sobre economia. Monopólio puro de mercado é rarissimo, quase uma aberração zoológica, porque sem a proteção do Estado qualquer posição dominante é corroída pela ambição dos concorrentes, pela criatividade dos empreendedores, pela insatisfação dos clientes. Monopólio duradouro é sempre, sem exceção, uma construção política disfarçada de arranjo técnico. Escreva isso numa placa e pendure na parede. Quando alguém aparecer explicando que certo mercado precisa de "regulação para garantir a estabilidade", traduza mentalmente: precisa de regulação para impedir que a estabilidade dos lucros de alguém seja incomodada pela concorrência.

E note a ironia adicional, quase cômica se não fosse trágica. O VantageScore não é nenhum levante libertário, nenhuma insurgência de mercado livre, é uma criatura das três grandes burós de crédito que também já estavam dentro do arranjo. Ou seja, o que estamos vendo não é a chegada do capitalismo concorrencial ao mercado de score, é apenas a admissão de um segundo convidado no mesmo clube fechado. E mesmo essa rachadura cosmética, essa concessão minúscula, foi suficiente para evaporar bilhões em valor de mercado do incumbente. Imagine, então, o que a concorrência de verdade faria. Imagine o que aconteceria se qualquer empresa pudesse oferecer uma metodologia de avaliação de risco e deixar que bancos e mutuários escolhessem livremente qual usar. O preço do crédito cairia, a qualidade da análise subiria, e meio andar de lobistas em Washington precisaria procurar emprego honesto.

Fica a moral da história para quem ainda acredita em conto de fadas regulatório. Toda vez que um órgão estatal decreta um "padrão único" em nome do consumidor, desconfie. Toda vez que uma agência federal escolhe um fornecedor preferencial em nome da "estabilidade sistêmica", siga o dinheiro. Toda vez que o discurso oficial fala em "proteger o mercado de volatilidade", pergunte-se quem está sendo protegido de quem, e quem paga a conta dessa proteção generosa. Os acionistas da FICO acabaram de receber, num único pregão, a aula de economia que as universidades americanas se recusam a dar há quarenta anos. Privilégio conquistado por decreto evapora no dia em que o decreto muda de ideia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.