O fato é prosaico e revelador. O FDA emitiu novas diretrizes regulatórias para o setor de tabaco, e as ações das gigantes do ramo dispararam quase imediatamente. Quer dizer, não houve descoberta científica, não houve aumento de demanda, não houve revolução tecnológica. Houve apenas um afrouxamento na pressão do regulador, e bilhões de dólares em valor de mercado materializaram-se do nada, como coelho saindo da cartola. Me diz uma coisa: que tipo de mercado é esse em que o capital se move conforme o humor de um comitê em Washington?

A resposta é simples e desconfortável. É o mercado que temos depois que aceitamos, durante décadas, a tese de que tudo precisa ser tutelado por alguém de jaleco branco com crachá federal. O preço das ações de tabaco hoje não reflete a vontade do consumidor, o custo da produção ou a eficiência da empresa. Reflete, antes de tudo, a expectativa do que o regulador vai permitir, proibir, taxar ou liberar amanhã. O capitalismo de mercado virou capitalismo de antessala, onde quem tem mais lobby em Washington colhe mais retorno em Wall Street.

E aqui mora a graça da coisa, que é também a tragédia. As mesmas pessoas que aplaudem a regulação pesada do tabaco em nome da saúde pública são as que fingem não ver que essa regulação criou um oligopólio blindado, no qual três ou quatro gigantes dominam o setor justamente porque só elas têm musculatura jurídica para sobreviver ao labirinto de normas. Pequeno produtor, concorrente novo, alternativa disruptiva? Esmagados pela barreira de entrada chamada compliance. O resultado é exatamente o oposto do anunciado: menos concorrência, preços mais altos para o consumidor, e lucros monopolísticos garantidos por decreto. Saúde pública, claro, agradece muito.

Siga o dinheiro e o teatro se desfaz. Quem ganha quando o FDA aperta? As próprias gigantes do tabaco, que se livram da concorrência marginal e repassam o custo regulatório ao fumante. Quem ganha quando o FDA afrouxa? As mesmas gigantes, que veem suas ações dispararem porque o mercado entendeu que o pedágio ficou mais barato. Em qualquer cenário, o burocrata é indispensável, e o acionista do incumbente sorri. O fumante paga a conta, o contribuinte sustenta a estrutura, e o consumidor que poderia comprar de um concorrente menor simplesmente não tem concorrente menor para comprar. Genial, não é?

Há uma lição mais profunda nesse episódio, e ela não tem nada a ver com cigarro. Tem a ver com a ficção de que existe um mercado livre quando, na verdade, o preço de tudo, das ações ao maço, passa antes pelo crivo de uma autoridade que ninguém elegeu, que ninguém pode demitir, e que responde a pressões que o cidadão comum jamais saberá quais foram. Cada novo regulamento é vendido como proteção, e cada proteção termina sendo, na prática, uma reserva de mercado para quem já estava dentro. Os de fora que se virem; os de dentro que comemorem.

Sobra o de sempre, aquele padrão que se repete há um século em qualquer setor onde o Estado decidiu botar a mão: o discurso é de defesa do fraco, a prática é de blindagem do forte, e o resultado de bolsa é o termômetro mais honesto do arranjo. Quando uma ação sobe porque o regulador piscou, não houve criação de riqueza, houve transferência de poder. E poder transferido raramente volta para quem deveria tê-lo desde o início, que é o sujeito que tira o dinheiro do bolso para comprar o produto. Mercado livre de verdade não precisa de boas notícias do FDA para subir; só o mercado capturado precisa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.