O índice pan-europeu fechou maio no positivo embalado por uma palavra mágica que os operadores de Frankfurt e Paris descobriram que move gráfico melhor que earnings: paz. A simples expectativa de um cessar-fogo no Oriente Médio bastou para empurrar bolsa para cima, derrubar prêmio de risco do petróleo e fazer gestor de fundo europeu posar de humanista nas entrevistas de fim de mês. Quer dizer, o mesmo sujeito que comprou ação de defesa quando os mísseis começaram agora compra cíclica porque os mísseis vão parar. O cinismo é tão escancarado que virou paisagem.

Olha, ninguém em sã consciência acredita que o mercado europeu subiu porque humanitariamente torce pela vida de civis em Gaza, Beirute ou Teerã. O que subiu foi a expectativa de que o barril de Brent encoste novamente nos setenta dólares, que as cadeias logísticas no Mar Vermelho voltem a operar sem sobretaxa de seguro, e que o BCE finalmente tenha desculpa para cortar juros sem ser linchado pelos alemães. A paz é precificada como insumo, exatamente como a guerra foi precificada como insumo. Sangue sobe, sangue desce, e o terminal pisca verde nos dois casos.

Aqui mora o detalhe que ninguém da imprensa de negócios quer sublinhar: as mesmas empresas listadas que agora puxam o índice para cima na onda da reconciliação são, em boa parte, as que faturaram alto vendendo equipamento, energia e logística durante os dois anos de conflito. Siga o dinheiro e ele leva sempre ao mesmo endereço, um prédio de vidro com lobistas no subsolo e contratos públicos no andar de cima. O conglomerado de defesa francês não vai devolver um euro do contrato de munição assinado em 2024 porque agora há trégua. O contrato venceu, a fábrica seguiu, o dividendo foi pago, e o acionista dorme tranquilo enquanto sobe na manchete como beneficiário da paz.

Existe uma confusão pedagógica que precisa ser desfeita antes que ela contamine o leitor desavisado. Mercado em alta não é sinônimo de economia saudável, da mesma forma que mercado em queda não é sinônimo de tragédia coletiva. O que aconteceu em maio na Europa foi rotação de capital, ajuste de carteira, recomposição de prêmio de risco. A economia real europeia continua o mesmo paciente terminal de sempre, com produtividade estagnada, demografia em colapso, energia cara por escolha política e regulação que sufoca qualquer empreendedor com menos de duzentos advogados na folha. Bolsa subindo num continente que não cresce há quinze anos é menos uma vitória do capitalismo e mais um exercício de contabilidade criativa do trader.

E tem o ponto que dói no estômago dos editorialistas progressistas, embora eles continuem fingindo que não veem. A guerra foi financiada com dinheiro impresso, com dívida soberana, com imposto extraído à força do trabalhador alemão e do aposentado italiano. A paz, se vier mesmo, será celebrada como conquista diplomática dos mesmos governos que assinaram os cheques para que o conflito durasse. É a velha mecânica do incêndio premiado: o Estado ateia o fogo via política externa intervencionista, vende a mangueira via complexo industrial-militar, e depois cobra ingresso para o público assistir à reconstrução. O contribuinte paga três vezes, e ainda agradece.

O resumo honesto, aquele que não cabe no relatório do banco de investimento porque o cliente é justamente quem se beneficia da bagunça, é o seguinte: o pregão europeu não comemorou a paz, comemorou a previsibilidade. Tanto faz se o mundo arde ou se reconcilia, desde que dê para modelar no Excel. Quando você entender que para o capital financeiro globalizado a guerra e a paz são apenas dois regimes de volatilidade diferentes, vai parar de se emocionar com manchete de bolsa e começar a perguntar o que de fato importa, que é quem decidiu, com o dinheiro de quem, e em benefício de quem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.