A notícia chega embrulhada em papel celofane, daqueles que brilham na vitrine para esconder a banalidade do produto. Ações industriais escolhidas por inteligência artificial dispararam mais de dez por cento, e a imprensa financeira anuncia o feito com a mesma reverência com que o camponês medieval recebia a previsão do mago da corte. Esqueceram, no caminho, de perguntar o óbvio: quantas escolhas a tal inteligência fez no total, quantas afundaram, quantas ficaram no meio do caminho. Quando você atira mil flechas no escuro e mostra apenas as três que acertaram o alvo, isso não se chama análise, chama-se trapaça estatística com verniz tecnológico.
O fascínio com a máquina que prevê o mercado é a versão atualizada de um truque velhíssimo. Antes era o gestor de fundo com MBA em Chicago, antes dele o economista com doutorado em Harvard, antes dele o corretor com sotaque carregado e charuto na boca. Cada geração inventa seu sacerdote, e cada sacerdote vende a mesma promessa, a de antecipar o imprevisível. O mercado, porém, não é uma equação à espera de quem a resolva, é o resultado vivo e movediço das escolhas de milhões de pessoas com informações fragmentadas, medos privados, esperanças incomunicáveis. Nenhum cérebro humano, nenhum cluster de servidores, nenhum modelo treinado em terabytes de histórico consegue agregar isso melhor do que o próprio sistema de preços fazendo o que sempre fez, em tempo real, de graça.
Convém seguir o dinheiro, como sempre convém. Quem ganha com a febre da inteligência artificial aplicada ao mercado financeiro? Não é o pequeno investidor que paga a assinatura mensal da plataforma, não é o aposentado que realocou a poupança confiando no robô. Ganham as corretoras que cobram pela ferramenta, ganham as gestoras que adicionam a sigla mágica aos seus produtos para justificar taxas mais gordas, ganham as empresas de tecnologia que vendem o software por baixo. O algoritmo é o novo selo de qualidade, e o selo custa caro. Quando o papel sobe, vendem como mérito da máquina; quando despenca, vendem como volatilidade do mercado, imprevisibilidade dos eventos, fatores exógenos. O lucro tem dono, o prejuízo é órfão.
Há também o detalhe inconveniente de que toda escolha algorítmica é, na origem, uma escolha humana disfarçada. Alguém programou os critérios, alguém definiu os pesos, alguém escolheu o universo de ativos analisados, alguém calibrou o que conta como sinal e o que conta como ruído. A pretensa neutralidade da inteligência artificial é uma ficção de marketing, e ficção das mais cínicas, porque transfere a responsabilidade do gestor para uma entidade abstrata que ninguém pode processar quando o resultado é desastroso. Não foi o homem, foi o modelo, dizem. E o cliente, que perdeu metade do patrimônio, fica olhando para a tela tentando entender em qual departamento de relações públicas pode reclamar do silício.
O ponto mais perverso é o efeito psicológico desta narrativa sobre o investidor comum. Ele desliga o cérebro, abdica da reflexão, terceiriza o juízo para um sistema que não compreende e cuja lógica interna lhe é vedada por contrato e por complexidade. Tornou-se boi de canga em uma fazenda onde antes era proprietário do próprio destino financeiro. A liberdade econômica começa com a responsabilidade de pensar sobre o próprio dinheiro, e quem entrega isso de bandeja para uma caixa preta está se preparando para descobrir, da maneira mais cara possível, que delegar não é o mesmo que decidir bem.
O futuro previsível desse entusiasmo é o mesmo de todas as bolhas tecnológicas anteriores, a euforia inicial, a entrada massiva de capital ingênuo, o aparecimento de produtos cada vez mais arriscados embalados na mesma sigla, o estouro inevitável quando a realidade diverge do modelo, e por fim a busca por culpados que serão sempre os outros, nunca o entusiasta da véspera. Enquanto isso, quem entende o jogo continua fazendo o que sempre funcionou, comprar bons ativos a preços razoáveis, conhecer no que se está investindo, desconfiar de promessas mirabolantes e lembrar que se algo parece bom demais para ser verdade, é porque alguém está comendo a sua parte do almoço enquanto você admira o cardápio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.