O cenário é quase cômico se não fosse caro. Os índices americanos amanhecem no vermelho, o iuan chinês escala para o maior patamar em três anos, e tudo isso porque dois senhores vão se encontrar e, presumivelmente, dizer algo sobre tarifas, soja, semicondutores e o eterno teatro do comércio bilateral. Quer dizer, o mercado global de capitais, que deveria refletir a produtividade marginal das empresas, está hoje pendurado num gesto político. Quem ainda acha que isso é capitalismo precisa rever o dicionário.

Olha, a ascensão do iuan não é vitória da China, é confissão de fraqueza do dólar. Quando uma moeda emitida por um regime de partido único, com controle de capitais e contabilidade imobiliária digna de circo, começa a parecer atrativa, é porque a alternativa anda imprimindo papel sem parar para financiar guerras que não vence e programas sociais que não funcionam. A força relativa de uma moeda ruim diante de outra pior não é triunfo, é tragédia anunciada em câmera lenta.

E me diz uma coisa, quem ganha com tarifa? O consumidor americano que paga mais caro pelo eletrônico? O produtor brasileiro de soja que perdeu market share na China? O industrial chinês que vê seu mercado encolher? Não. Quem ganha é o lobista que fica no andar de cima do prédio em Washington negociando exceção setorial, é o burocrata de Pequim que distribui subsídio para o campeão nacional escolhido a dedo, é o operador de Wall Street que sabe a hora certa de comprar e vender porque tem amigo no Tesouro. O resto paga a conta sem saber que está pagando.

O que se vê é a manchete sobre o encontro histórico, o aperto de mão, a foto oficial. O que não se vê é a fábrica que fechou no interior do Ohio porque o aço subiu vinte por cento, o pequeno importador brasileiro que faliu porque o dólar oscilou trinta por cento em seis meses, a poupança do aposentado americano que perdeu poder de compra porque o Fed terá que cortar juros para acomodar a próxima rodada de gastança fiscal. Toda intervenção fabrica uma vítima invisível, e a soma dessas vítimas é o que chamamos de empobrecimento geral.

A verdade desconfortável é que dois governos negociando o preço de tudo entre dois continentes é a antítese exata do comércio. Comércio é quando você e eu trocamos voluntariamente porque ambos ficamos melhores. O que acontece em Washington e Pequim é leilão de privilégio, divisão de espólio, redistribuição de renda dos pagadores de imposto para os amigos do rei. Chamar isso de política comercial é como chamar assalto de redistribuição de patrimônio.

E o iuan na máxima, as ações em queda, o petróleo oscilando ao sabor do tweet, tudo isso é sintoma da mesma doença: a economia mundial virou refém de duas cortes imperiais que decidem por bilhões de pessoas o que será produzido, vendido e consumido. Os antigos chamavam isso de mercantilismo e gastaram trezentos anos para se livrar dele. Estamos pagando para reaprender a lição.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.