A Bayer assinou um acordo de US$ 7,25 bilhões para enterrar de vez a guerra judicial em torno do herbicida Roundup, aquele famoso glifosato que herdou junto com a aquisição bilionária da Monsanto em 2018, e agora descobre, com a delicadeza de um soco no estômago, que o sistema judicial americano não vende paz, vende prorrogação. Um novo obstáculo judicial atravessou a mesa e a alemã, que já desembolsou mais de dezesseis bilhões de dólares ao longo dos anos para tentar fechar a porta desse litígio, vê o acordo ranger nas dobradiças. Quer dizer, sete bilhões e meio de dólares depois, o problema continua de pé, sorridente, pedindo bis.
Olha, ninguém aqui está defendendo a Monsanto, empresa que construiu seu império em parceria íntima com agências reguladoras americanas, que financiou estudos científicos sob medida e que praticou durante décadas o esporte favorito do grande capital ocidental, transformar regulação estatal em escudo contra concorrência. Mas é justamente aí que mora a ironia. A mesma estrutura jurídica que durante anos serviu de guarda-costas da Monsanto contra processos individuais, agora se volta contra a Bayer no formato de litígios em massa, com advogados de classe faturando bilhões de honorários, juris populares decidindo questões de toxicologia que nem químicos consensualizam, e indenizações fixadas por sentimento, não por nexo causal.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que o problema central do glifosato é resolvido no tribunal de Saint Louis ou São Francisco? O herbicida é aprovado pela própria agência ambiental americana, é aprovado pela agência europeia, foi reavaliado no Brasil e segue liberado em quase todo o planeta. Se a substância é cancerígena ou não, é uma questão científica. Mas o sistema judicial americano transformou ciência em loteria, e a loteria tem regras simples, quem tem mais bolso é alvo, e quem tem advogado de classe é o atirador. A Bayer comprou a Monsanto porque queria os ativos. Levou junto o passivo construído por décadas de promiscuidade entre empresa e regulador. Quem dança com o Estado paga a conta quando a música muda.
Siga o dinheiro, sempre. Sete bilhões e duzentos e cinquenta milhões de dólares não vão parar nas mãos de agricultores doentes, vão parar majoritariamente nos escritórios de advocacia que orquestram litígios em massa nos Estados Unidos, uma indústria que movimenta dezenas de bilhões por ano e que se tornou, sem nenhum exagero, uma das maiores formas de redistribuição compulsória de capital do Ocidente. É um imposto privado, cobrado por advogados, autorizado por juízes, legitimado por juris emocionais, sem que nenhum eleitor jamais tenha aprovado a alíquota. E quando o acordo trava, como agora, o que se prolonga não é a justiça das vítimas, é a sangria do réu e o festival de honorários.
O efeito de segunda ordem é o que ninguém quer ver. Cada bilhão drenado da Bayer é um bilhão a menos em pesquisa agrícola, em desenvolvimento de novas sementes, em produtividade rural, e isso significa, lá na ponta, comida mais cara na mesa de quem ganha salário mínimo no interior do Maranhão e do Mato Grosso. O fazendeiro brasileiro que depende de defensivo barato para alimentar duzentos milhões de pessoas vai pagar parte dessa conta. O consumidor que reclama do preço do arroz e do óleo de soja vai pagar parte dessa conta. Os advogados de classe em Manhattan, esses, vão pagar champagne. É o velho truque, socializa o prejuízo, privatiza o honorário, e ninguém vê a janela quebrada porque todos estão olhando para o vidraceiro recebendo.
No fim das contas, o caso Roundup é menos sobre química e mais sobre arquitetura institucional. Um sistema judicial que permite transformar incerteza científica em jackpot bilionário não está protegendo consumidor, está produzindo arbitragem. E uma empresa que herdou os pecados de uma fusão mal calculada descobre, tarde, que comprar a Monsanto era comprar um cavalo de Troia jurídico montado pelo próprio Estado que hoje a esquarteja. Quando a lei vira instrumento de pilhagem legalizada, o que morre primeiro não é o réu, é a confiança de que existe algum sentido em produzir alguma coisa nesse Ocidente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.