A ACS, antiga empreiteira de Florentino Pérez que virou multinacional de infraestrutura, anuncia agora a alocação de US$ 2,1 bilhões em projetos de data centers e infraestrutura digital, e o noticiário econômico repete o número como se estivesse diante de um milagre empresarial. Olha, antes de bater palmas, vale perguntar de onde vem cada centavo desses dois bilhões, para onde vai, e quem fica com a conta quando a festa acabar. Porque toda vez que um conglomerado desse porte resolve "investir" em algo que coincidentemente é a prioridade declarada da Comissão Europeia, do governo espanhol e dos fundos verdes de Bruxelas, o investidor desavisado deveria desconfiar.

Data center não é fábrica de carro nem padaria de bairro. É infraestrutura intensiva em capital, dependente de energia barata, terreno subsidiado, isenção fiscal regional e contratos de longo prazo com governos ou com gigantes da nuvem que, por sua vez, atendem governos. Quer dizer, o "mercado" de infraestrutura digital na Europa hoje é um arranjo onde o capital privado entra com a marca e a engenharia, o contribuinte entra com o terreno desapropriado, o consumidor de energia entra com a tarifa inflada para bancar a "transição", e o lucro sobe limpinho para os acionistas do conglomerado. Chamar isso de capitalismo é ofensa à palavra.

O detalhe que ninguém quer enxergar é que a Espanha vive uma das maiores crises de produtividade do bloco, com desemprego juvenil acima de 25%, dívida pública batendo recordes e um setor produtivo que sobrevive à base de fundos europeus. Nesse cenário, anunciar dois bilhões em data centers soa como notícia de prosperidade, mas é apenas o reflexo contábil de uma economia que já não consegue alocar capital por sinais de preço genuínos. O dinheiro vai para onde o Estado aponta o dedo, não para onde o consumidor sinaliza demanda. E quando o Estado aponta o dedo, o consumidor descobre meses depois que está pagando a conta na tarifa de luz, no imposto territorial e na inflação dos alugueis das regiões onde esses galpões se instalam.

Me diz uma coisa, alguém perguntou ao morador de Aragão ou da Extremadura se ele quer um data center consumindo 200 megawatts e milhões de litros de água por dia na vizinhança dele? Claro que não. O acordo foi fechado entre executivo da ACS, prefeito regional ávido por foto e burocrata de Bruxelas com meta de "soberania digital" para entregar. A propriedade da terra, a água do aquífero, a estabilidade da rede elétrica, tudo isso pertence a alguém antes de virar linha de balanço da multinacional, mas no léxico do planejador central, propriedade é detalhe contornável quando o projeto é estratégico.

Há ainda o aspecto cômico de chamar isso de "investimento em inovação". Data center é tijolo, ar condicionado industrial e cabo de fibra. A inovação, se existe, está no chip dentro do servidor, e esse chip vem de Taiwan, da Coreia ou dos Estados Unidos. A Europa, que perdeu o trem da computação, da internet, das redes sociais e da inteligência artificial, agora se contenta em ser o galpão dos outros e finge que isso é renascimento tecnológico. É como um país que perdeu sua indústria automobilística comemorar a construção de mais um estacionamento.

O resultado previsível desse arranjo, e quem viveu o suficiente em ciclos econômicos já sabe, é que daqui a cinco ou sete anos veremos manchetes sobre capacidade ociosa, renegociação de contratos, pedidos de socorro fiscal e algum escândalo envolvendo o sobrinho de algum ministro que vendeu a terra para o projeto pelo triplo do valor de mercado. O ciclo é sempre o mesmo: anúncio bombástico, subsídio invisível, lucro privatizado, prejuízo socializado. Mude o setor, mude o país, mude a década, a coreografia é idêntica. Quem aprendeu a ler balanço sabe que o ativo verdadeiro dessas operações nunca está no relatório anual, está no contrato com o governo que ninguém divulga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.