A AeroVironment anunciou uma expansão de US$ 15 milhões em suas operações no estado de Ohio, supostamente para atender à crescente demanda por sistemas não tripulados. O comunicado vem embalado naquela retórica reluzente de "investimento privado", "empregos qualificados" e "soberania tecnológica", como se a empresa estivesse arriscando capital próprio num mercado competitivo qualquer. Quer dizer, a coisa parece um caso de livre iniciativa em estado puro. Parece. O detalhe inconveniente é que praticamente todo dólar de receita da AeroVironment sai, direta ou indiretamente, do bolso do contribuinte americano via contratos do Departamento de Defesa. Não é expansão privada. É realocação de subsídio com cerimônia de inauguração.
Me diz uma coisa, desde quando expansão fabril financiada por encomenda garantida do Estado é exemplo de mercado funcionando? Isso tem nome antigo na história econômica, e o nome não é capitalismo. É mercantilismo, a velha arte de transformar o tesouro público em portfólio privado mediante o devido contrato com a coroa. Mudou a coroa, mudou o uniforme, mudou o produto. O arranjo é idêntico ao que enriquecia armadores ingleses no século XVIII e fazendeiros de monopólio no Brasil colonial. A diferença é que hoje vem com slide deck e relatório ESG.
Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. O Pentágono recebe orçamento ampliado todo ano em nome da ameaça da vez, repassa contratos plurianuais para um grupo seleto de fornecedores, esses fornecedores anunciam "investimentos" em estados-chave eleitoralmente, os governadores aparecem na foto cortando fita, os congressistas locais garantem que o pacote de defesa não seja contestado, e o contribuinte paga a conta três vezes, no imposto, na inflação que financia o déficit, e no preço final do produto que ele jamais comprou. Os quinze milhões em Ohio não são investimento de risco. São antecipação contábil de receita garantida por força de lei. É como abrir uma padaria sabendo que o exército comprará todo o pão por vinte anos, com cláusula de reajuste.
O que não se vê nessa transação é justamente o que importa. Os empregos celebrados em Ohio existem à custa dos empregos que jamais nascerão em milhares de pequenos negócios sufocados pela carga tributária necessária para sustentar o orçamento militar inchado. O capital que parece estar sendo aplicado em drones poderia estar financiando indústrias que vendem para clientes voluntários, não cativos. A inovação que se aplaude é, na verdade, uma inovação altamente direcionada por encomenda burocrática, não por descoberta de necessidades reais. Toda vez que o Estado escolhe o vencedor antes da corrida, todos os corredores que não foram convidados desaparecem da história sem deixar nome.
Há ainda uma camada cultural que merece atenção. A imprensa econômica trata anúncios desse tipo com reverência quase litúrgica, repete o release sem perguntar de onde vem a receita, e empacota o resultado como triunfo do espírito empreendedor. É o tipo de jornalismo que confunde o cheiro de fumaça da fábrica com aroma de prosperidade, sem perceber que metade da fumaça é o dinheiro do vizinho queimando. Quando o noticiário desaprende a fazer a pergunta básica, quem está pagando por isso, deixa de informar e passa a evangelizar.
O mercado livre não precisa de cerimônia de gratidão ao governador, nem de press release coordenado com o Pentágono, nem de fotos com bandeira ao fundo. O mercado livre precisa de consumidor pagando do próprio bolso por algo que escolheu livremente. Tudo o que foge disso é teatro, e teatro caro, pago à força por uma plateia que sequer foi consultada sobre o ingresso.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.