Uma empresa que vendia tênis de lã sustentável para a classe média americana com culpa ambiental acaba de anunciar que agora é uma empresa de inteligência artificial. A Allbirds, aquele fenômeno do Vale do Silício que prometia salvar o planeta com calçados ecológicos, vendeu sua divisão de sapatos e renasceu como NewBird AI, munida de 50 milhões de dólares em financiamento conversível e de uma audácia que só o mercado de tecnologia americano é capaz de premiar. O leitor que tem memória sabe que já viu esse filme antes. E sabe como termina.

O que aconteceu com a Allbirds não é um pivô estratégico, é uma confissão de fracasso embalada em linguagem de press release. A empresa abriu capital em 2021 com uma avaliação de quase 4 bilhões de dólares, surfando aquela onda ESG que transformava qualquer produto medíocre em investimento "consciente". Dois anos depois, as ações haviam derretido mais de 95%. O produto não era ruim, mas também não era excepcional, e o mercado de calçados não perdoa quem confunde marketing com engenharia. Em vez de admitir que o modelo de negócio era insustentável, a diretoria fez o que toda empresa desesperada faz nesta década: colou as duas letras mágicas no nome e saiu pedindo dinheiro.

Existe um padrão aqui que merece atenção. Na história econômica, toda bolha produz esse tipo de transmutação oportunista. Nos anos 1990, empresas de tijolo e cimento adicionavam ".com" ao nome e viam suas ações triplicarem da noite para o dia. Uma fábrica de sucos virava portal de internet. Um distribuidor de revistas virava empresa de e-commerce. O mecanismo é sempre o mesmo: investidores perseguem a narrativa do momento, e empreendedores sem escrúpulos aprendem rapidamente que mudar o rótulo é mais fácil do que mudar o produto. A Allbirds não inventou esse truque, apenas o executou com a desfaçatez característica de quem já foi aplaudido demais para sentir vergonha.

O mais revelador nessa história toda são os 50 milhões em financiamento conversível. Alguém, em algum fundo de investimento, olhou para uma empresa que fracassou vendendo tênis de lã e decidiu que essa mesma equipe, com essa mesma cultura corporativa, seria capaz de competir num mercado dominado por gente que estuda semicondutores desde a adolescência, que projeta arquiteturas de computação há décadas, que entende de álgebra linear e otimização de inferência como um cirurgião entende de anatomia. A inteligência artificial não é um rótulo que se cola numa empresa moribunda. Exige hardware de ponta, engenheiros de verdade, infraestrutura brutal e, acima de tudo, um problema real para resolver. Nada disso se compra com um comunicado à imprensa e uma rodada de financiamento.

O caso da NewBird AI deveria servir de alerta para qualquer investidor com dois neurônios funcionais. A inteligência artificial é a tecnologia mais transformadora desde a prensa de tipos móveis, e justamente por isso atrai todo tipo de parasita que quer se apropriar da narrativa sem entregar resultado. Enquanto engenheiros de verdade estão projetando chips, treinando modelos e resolvendo problemas que pareciam impossíveis cinco anos atrás, uma legião de oportunistas está rebatizando empresas falidas e chamando isso de inovação. O mercado americano, com sua memória curta e sua fome insaciável por novidade, vai engolir algumas dessas histórias antes de cuspir os ossos. A pergunta que o investidor sério deveria fazer não é "essa empresa usa IA?", mas sim "essa empresa sabe fazer alguma coisa de verdade?". No caso da Allbirds, a resposta, pelo menos até agora, é que ela sabia fazer tênis razoável. E nem isso conseguiu vender.

Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.