O Banco Central anunciou que vai soltar na quarta-feira mais uma edição da sua pesquisa trimestral de estabilidade financeira, e a imprensa especializada recebe a notícia com a reverência de quem aguarda tábuas descendo do monte. Olha, é curioso. A instituição que define a taxa de juros, regula os bancos, opera o câmbio e empurra dívida pública goela abaixo do contribuinte é a mesma que se propõe a avaliar, com ar de juiz imparcial, se o sistema que ela mesma desenhou está saudável. Quer dizer, o bombeiro pirômano vai publicar relatório sobre a temperatura do incêndio.
A agenda do BC nessa semana é um pequeno tratado de como a burocracia monetária moderna funciona: pesquisa de estabilidade na quarta, divulgação de dados na segunda, comunicados intercalados ao longo dos dias, tudo encadeado para dar ao público a sensação de que existe alguém pilotando a aeronave com instrumentos precisos. Não existe. Existe um comitê de doutores que olha gráficos, ajusta um botão chamado Selic e reza para que a inflação volte ao centro da meta sem derrubar o emprego. É chute técnico, com chá de sofisticação econométrica por cima. E o chute custa caro, porque cada décimo de juros que sobe ou desce significa bilhões transferidos entre devedores, credores, contribuintes e rentistas.
Me diz uma coisa, se você tirar o BC da equação, o sistema financeiro brasileiro entra em colapso espontâneo? Ou ele só está frágil porque foi montado em cima de uma pirâmide de crédito subsidiado, compulsório alterado a cada crise, e papelada de Tesouro que rende mais que praticamente qualquer atividade produtiva do país? A pesquisa de estabilidade nunca vai responder isso, porque a resposta honesta seria a confissão de que o paciente está doente do remédio. Seguir o dinheiro aqui é exercício constrangedor: os grandes bancos que serão "avaliados" são os mesmos que financiam o governo que controla o Banco Central que regula os bancos. Um circuito fechado, autorreferente, blindado contra qualquer auditoria externa que valha o nome.
Vale lembrar que toda vez que uma autoridade monetária garante publicamente que o sistema está sólido, convém apertar o cinto. Em 2007, antes do estouro americano, as cartas dos reguladores eram um hino à robustez. Em 1929, idem. A história econômica é uma galeria de boletins tranquilizadores publicados às vésperas do desastre. Não porque os técnicos sejam idiotas, eles em geral não são, mas porque o sistema que eles administram esconde os riscos exatamente nos pontos cegos dos modelos que usam para medi-los. O que se vê é o relatório bonito; o que não se vê é o crédito artificial empoçado em setores que só existem porque o juro real foi subsidiado por algum tempo.
E sobra a piada final, que é também a mais séria. O cidadão comum, que paga IOF, paga spread bancário entre os mais altos do planeta, paga inflação que come o salário e paga imposto sobre o rendimento da poupança que mal acompanha essa mesma inflação, é convidado a ler a pesquisa do BC como quem assiste a um espetáculo técnico do qual não participa. Não participa porque não foi convidado, porque o desenho institucional brasileiro retirou da população qualquer poder de decisão sobre a moeda que circula no próprio bolso. Estabilidade financeira, no vocabulário do BC, quer dizer estabilidade do arranjo que beneficia quem está dentro. Para quem está fora, é outra coisa: é o nome bonito da conta que sempre chega.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.